sexta-feira, 5 de março de 2010

Ainda assim

Fui breve, foi breve a passagem que por ti fiz.
E dizes-me que ainda assim um pedaço de ti se perdeu em mim. As tuas mãos sonharam gestos, os teus lábios palavras, os teus desejos foram semente e eu, campo em pousio, não me deixei fecundar.

Não me apeteciam as valsas que compassadamente dançavam dentro de ti. Entonteciam-me os rodopios que desenhavas tão bem. Ouvia-te e renegava-te porque me queria lúcida. Bastava-me saber-te. Tudo, era demais.

Eu sou aquela que te queria absorver. E dentro de mim guardar-te. Como um tesouro em que nunca vou tocar. Assim serás sempre o que imagino de ti. Nada mais quero.

Ainda assim fiquei em ti e tu em mim. Duma breve maneira.

A cidade

A cidade cresceu longe de mim. Em lugares que julgava do mar e da serra. E deixou-me aqui a perder-me do que era, do que sou.
Vejo ainda quem passa e cresce ao ritmo dos dias que se transformam a cada momento. Não sei já quantas memórias contenho e por quanto tempo. Um dia serei também cinza destas lembranças, recordação em postais com pontas dobradas e amareladas.

Não sou nada. Não o é ninguém. Somos momentos em tempos que se escorrem como as areias das praias que beijo ao escoarem-se pelos dedos de ingénuas crianças. E só. E tanto!

Se o que ouço e vejo, se o que sinto e pressinto, fosse argamassa de tempo, seria eterno pelo tempo que a eternidade tem. Por tanto ser.
Mas é poeira, só poeira. Daquela que entra olhos dentro e os faz chorar.
Um choro cheio de saudades dum futuro a adivinhar. Onde as cidades, talvez, cresçam dentro de nós.

O bocejo e a lágrima

A principio, sabes bem, o que eles diziam não fazia sentido. Teres morrido significava que não voltavas mais para junto de nós, de mim. E para isso eu não estava ainda preparada. Na minha cabeça as histórias mais inverosímeis foram surgindo para explicar tudo quanto ia acontecendo. E eu sabia que ias voltar.
Lembro-me de quando entravam e irrompiam em choro e eu a par com eles como se não o pudesse evitar. Como com os bocejos, sabes? Parece quase contágio. Depois parava, o silêncio voltava e na minha cabeça as histórias continuavam a rolar como um filme... parecido com aquele que via quando o telefone tocou e tudo começou a mudar cá em casa. Tu não ias voltar mais.

E a minha cabeça a latejar... e as lágrimas a cair como bocejos. Queria pará-las e fazer rewind no filme que não parava de acontecer até que te vi.
Deitado com um ar solene. O sorriso que te deixara há muito não o procurei. Fecharas os olhos e não te mexias. Fiz o teu jogo. Não te iria denunciar. Sabia que já há muito tempo te querias ausentar dali, daquela vida. Era assim que o fazias.
Quando nos fossemos todos embora, levantar-te-ias e seguirias então o teu caminho. Só eu saberia o teu segredo. Nunca o diria a ninguém.

Só nunca percebi aquela mancha vermelha num pedaço de algodão que te vi na cabeça. Preferi pensar que era mais um disfarce.

No entanto, agora posso dizer-te e sei que me vais desculpar, as lágrimas que então me caíram deixaram de ser como bocejos.

quinta-feira, 4 de março de 2010

O chapéu

O chapéu de feltro com abas largas não deixava ver-lhe o rosto.
Encostado ao umbral da porta parecia agarrar-se a qualquer réstia duma qualquer vida que também ela parecia não se deixar vislumbrar. Se aquela parede não existisse ele cairia por terra. Era a sua coluna vertebral. O que ainda o sustinha erecto. Nada mais lhe dava motivo para assim estar.
Quem o pudesse observar podia ver uma gota de água a deslizar sem entraves por entre as rugas já acentuadas junto à boca. Demorava-se aí um pouco, como que para saciar a sede da dor que se adivinhava na curva descaída dos lábios.
Ninguém o ousava olhar.
Desviavam o olhar na impotência de nada poder fazer.
E ele afundava-se por ele dentro, feito mar, feito onda, desfazendo-se contra aquele umbral daquela porta, debaixo das abas daquele chapéu que o escondiam...
E todos, testemunhas, se recusaram a sê-lo.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Não procuro


Não procuro homens como tu.
Não os conseguiria encontrar porque já nem sei como és.
Não procuro ninguém e tu sabes disso.
De tempos a tempos julgo ver no meu caminho alguém que me sabe ler sem perguntas. (Como eu te sabia sem o saber.) E depois se perde de mim. Como eu te perdi por tanta ausência. Por tanto tempo de permeio. Por tanto te imaginar.

Não se vive tanto tempo no imaginário alheio. Pelo menos sendo-se o que se é.
Passa-se a ser doutro sem que se saiba o que se é então.

Talvez não saibas agora o que és em mim.
Não és com certeza o que serás aí onde estás e não me dizes. Nessas ausências a que ambos somos e fomos alheios.
Não sabemos porque pecados.
Nem como os redimir.

Não procuro nem nunca encontraria.

terça-feira, 2 de março de 2010

Lembro-me

Lembro-me de te ver tardar a casa. Das tuas ausências cada vez maiores.
De olhar repetidas vezes da varanda da casa onde vivíamos para a rua para ser a primeira a ver-te chegar. Corria então até ao patamar e descia as escadas quase em voo para te saltar para o colo de que já sentia tanto a falta.
Não era em casa que entravas e eu ficava envergonhada atrás da porta até ganhar forças para subir as escadas cujos degraus me pareciam agora enormes e difíceis de transpor. Ia para o meu quarto, subia para a minha cama e a um canto enovelava-me e deixava as lágrimas caírem.
No meu sonho de menina-mulher tu eras só meu e cada instante que me era roubado era uma eternidade de que eu nunca conheceria o sentido. Só lhe saberia a dor que mais tarde recusaria sentir em cada homem que quisesse estar no lugar que afinal era só teu.

Nem sempre me apetece apaixonar.

Nem sempre me apetece apaixonar.

Mas às vezes enrosca-se em mim um desejo que me sufoca sem dó. Não percebo o que quer de mim quando estou tão bem assim.
Chama-me a visitar sítios que há muito não palmilho.

Viajo sózinha preenchendo meus espaços vazios com o alimento que minha alma vagabunda sabe tão bem fazer nascer.
Vadio sem rumos e sinto-me inteira.

Só quando me aperta este desejo percebo a falta que tu, ainda por inventar, me fazes!