domingo, 14 de março de 2010

Como?

As ruas estavam na mesma. Nada saiu do lugar. Tudo ficou indiferente ao que se fez de nós.
E foi isso que estranhei nelas e me fez sentir não pertencer mais ali.
Talvez sejam assim todos os finais. Desconhecer o conhecido.
Voltar a estrear o que já foi estreado. Viver de novo o que já tinha deixado de o ser.

Não te encontrei por ali e no entanto estavas em todos os lados. Longe. Onde nos pusemos.
Na distância que agora nos é devida. Como deve ser.
Vais estar em cada passo que por ali der, em cada cara com que me cruzar, até um dia te desvaneceres.

Como pode nada mudar, se nós mudámos?

quinta-feira, 11 de março de 2010

Quantas vezes...

Quantas vezes vagueamos sozinhos e não vislumbramos ninguém?
É o tempo das viagens tranquilas. O tempo de todos os tempos. De todas as possibilidades.
Um tempo de olhar longe sem limites, viajar sem bagagens e sem datas. Um tempo que só a nós pertence.

E um dia, num tempo sem contar, há gente que nos atropela nos caminhos que traçamos pelo descuido a que nos habituámos. Dos dias em que rumávamos sozinhos ao correr do tempo fica a réstia que se dilui no embaraçado das pegadas que agora nos acompanham. Fica difícil perceber por onde caminhar. Que caminhos seguir ou deixar.
Começam as interrogações que já não pertenciam ao vocabulário das pausas vividas. Acordam e num ruído pouco habitual tornam-se na melodia dos dias que se seguem.

Tanta gente de tão pouca que havia desnorteia e enlouquece por um tempo.
É o tempo de percorrer os caminhos que não se fazem sem mais ninguém.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Oh! Rosinha.


"Oh! Rosinha, Oh! Rosinha do meio.
vem comigo malhar o centeio.
O centeio, o centeio, a cevada.
Oh! Rosinha minha namorada."
O efeito era um sorriso certo e aberto e tu sabia-lo. Era a cantiga que me ligava a ti e às recordações de coisas boas. Nada havia a temer. Estava em segurança. Sabia-o a partir desse momento. Tu estavas lá.
Quando não estavas, trauteava-a baixinho e imaginava-me a teu lado. Não precisava de mais nada. Esquecia o tempo a passar e a razão de ficar fechada um dia inteiro. Não entendia os motivos de tais exilios e afundava-me naquela melodia.
Viajava então numa estrada de paralelepípedos e deixava a voz tremer nos solavancos quase ritmados. Era uma cantora de ópera e tu o meu público. Não havia solidão que aí chegasse.
Não existe solidão quando se vive na memória de alguém.
Agora?
Vou trautear de novo o que nunca esqueci.

terça-feira, 9 de março de 2010

Não sei

Não, não sei se alguma vez te cansas de mim. Das conversas que me ouves, do que digo sem ser para ti. Às vezes paro um pouco e penso que te ausentas. Sim. Talvez te canses. Como posso eu pensar que estás sempre disponível para mim? Que presunção é a minha?

Sinto a falta de te olhar nos olhos. De ver as tuas expressões. De perceber se hoje estás mais bem disposto ou ainda carregas o sorriso triste que te vi da última vez.
E é então que em vez de falar de mim me apetece ouvir-te. Deixo então que o silêncio me invada. Procuro-lhe nas entrelinhas as palavras que possam vir de ti. Um vão esforço.
Não te encontro. Por onde se perderam as palavras que, sei, tens para me dizer?

(Não te canses como eu não me canso de te procurar.
Um dia encontramo-nos).

Apeteceste-me

Apeteceste-me logo que te ouvi. E não tinha vontades, então.
De onde elas vieram e porque se mostraram ainda não sei. Talvez a tua voz ou as palavras que dela se desdobraram tivessem sido a chave para a porta que se encontrava, até aí, fechada.

A verdade é que te sonhei em sonhos que já não sonhava.

Na nascente em que há tempos haviam secado os desejos ouvia agora, gota a gota, o despertar dos sentidos.


É no tic-tac ritmado que me deixo embalar e danço, mesmo sozinha, lembrando o tempo em que o farás comigo.
Memórias dum futuro que deixo germinar.

domingo, 7 de março de 2010

Entre uma e outra

Foto de Margarida Reis
As minhas estão como eram as tuas quando partiste. As delas estão como deveriam estar já as tuas. Entre uma e outra o tempo da saudade.
Um tempo de ausência alimentado nas memórias que plantadas no correr dos dias deram o seu fruto então. Um tempo em que sempre recusei a tua partida para lá de mim.

E se tempo foi saudade a morada foi o coração. E as lembranças que te trazem até mim, essas, mantêm-te vivo. Por isso falo contigo e te confidencio tanta coisa. Razão porque ouves o que não digo e sentes o que não exprimo. Tão entranhado me estás!

Quando um dia, finalmente me encontrar contigo saberei de cor as rugas que ainda não te vi.
Da mesma forma que tu me reconhecerás. Serei de novo a criança que um dia te viu partir. Verás!

sábado, 6 de março de 2010

Palmilho

Pouco a pouco palmilho em ti a viagem que os meus sentidos gritam dentro de mim. Uso a ponta dos dedos, tocando levemente na penugem quase invisível de que a tua pele se veste. Sinto-me estremecer daí até ao centro de mim. E sinto-te estremecer comigo.
Ondulas suavemente à medida que avanço neste percurso sem rumos. És tu que me levas onde queres. E eu vou porque também o quero.
Sou um rio a entrar mar adentro. Espraio-me em ti deixando de ser quem sou para sermos nós.
E é no rebentar da onda que este desejo de estar em ti, denuncia o amor que te sinto.

Sopro agora devagarinho o teu peito cansado. Persigo uma gota, talvez do mar onde nos afundámos, fazendo-a rodar em direcção ao teu mamilo ainda sedento. Recolho-a com a ponta da minha língua. Sinto o teu corpo arquear.
Beijo-te suavemente e deixo-te repousar.

Fico a olhar para ti. Não sei como um dia poderei deixar de te amar!