sábado, 10 de abril de 2010

Fosse como fosse

Andava também por ali de máquina a tiracolo. Como todos os turistas. Tinha parado para se refrescar e notara a sua presença. Estava sozinha, sentada a uma mesa. Aproveitava todos os instantes para fazer fotografia. O seu olhar não parava quieto. Como se não o pudesse fazer. À sua frente a bebida permanecia inteira. Decidiu aproximar-se.
Surpreendeu-a enquanto ela fotografava dois transeuntes apressados carregados de sacos. Posso sentar-me? Perguntou-lhe quase em surdina num inglês imperfeito. Ela anuiu surpresa mas com um sorriso. Juntou a sua bebida à dela e perguntou-lhe de onde era. Descobriram que falavam ambos a mesma lingua e que ambos estavam à descoberta. Espreitaram as fotografias um do outro. Riram-se de coisas sem importância.
Continuaram a viagem acompanhados até o sol se ir embora. Veio a lua e as estrelas também vieram. Não as contaram mas souberam assim que no dia a seguir podiam continuar viagem. O tempo estaria bom. Ditava-o o céu. Só não lhes disse se iriam continuar juntos ou se cada um iria para seu lado.
Quando adormeceram ela tinha-o guardado na sua máquina fotográfica. Ele também.
Fosse como fosse ninguém lhes tiraria o que ambos tinham tido e podiam assim guardar.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A ultima coisa

Da ultima coisa de que se lembrava era do cheiro que andava pelo ar. Um cheiro que lhe recordava a meninice e as idas para a escola. Os muros cobertos de flores lilases libertavam aquele mesmo cheiro adocicado.
Apeteceu-lhe ficar ali sempre. Não lhe doeu a espera que sabia não ia ter resultado. Vagueou por tempos antigos e deixou as horas caírem sem se dar conta. Depois veio-lhe uma súbita vontade de partilhar tudo isso com ele e apercebeu-se da sua ausência. Tinha-lhe dito que não estaria com ela. E fê-lo.
Levantou-se e voltou ao que prometera a si mesmo fazer. Cumprir os trajectos que traçaram a dois. Entrou no carro, pôs música bem alta e seguiu viagem. Hoje saltaria algumas coisas. Perdera-se demasiado tempo em sonhos. Era preciso voltar ainda cedo a casa.
Não sabe como fez a viagem. Não se lembra do caminho. Só mesmo do odor daquela planta de que não sabia o nome. Apetecia-lhe ter trazido um pequeno ramo. Teria de lá voltar.

Doía-lhe ter estado sozinha. Pior, não ter estado com ele.
Essa sim, foi a ultima coisa que lhe ficou na memória.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Voltar atrás.

Eram já muitos os dias que chorava a sua ausência. Viriam muitos mais. Não secava aquele caudal em que ele se afundava lentamente. Deixava-se ir. Nada lhe fazia ter vontade de voltar à superfície que cada vez ficava mais longe.

Tinha-lhe dedicado todo o seu tempo. Deixara amigos e família. Só tivera olhos para ela. A única razão da sua vida era ela. E agora não a tinha. Escapara-se-lhe duma forma imprevisível e prematura. Sonhara-a para sempre. Como podia agora viver sem a ter a seu lado? Percorrer as mesmas ruas, olhar os mesmos pôr do sol junto aquele mar de que ambos tanto gostavam, não mais seria possível.

Mirrava de tanto chorar. Em contraste com a Primavera que se espreguiçava lá fora o Inverno descia dentro dele. Era um homem velho e quebrado que de vez em quando saía à rua. Parecia carregar a morte dentro de si. O coração, de luto vestido, parecia despedir-se de tão leve bater.

As noites traziam-na viva nas memórias e sentia falta do corpo que tantas vezes abraçara. Ao lado, a cama despida, despedira-se das formas que ela um dia deixara. Nem uma camisola velha para lhe sentir o cheiro... Só a sua falta.
Como queria poder voltar atrás!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O tempo fazia-se tarde

Hoje meu corpo cansado deixou-se ficar abandonado a um sono que não o deixava. Não sei de onde lhe vinha tanto cansaço depois de tanta vontade de não parar. Nem os ruídos habituais o despertavam. Nem os mais irritantes do telémovel abandonado. Nada lhe dava o impulso necessário para sair daquela letargia. Hoje queria só dormir.

Lá fora havia sol. Sentia-o porque dormia sempre de persianas levantadas e a luz entrava sem pedir licença quarto adentro. Era assim que gostava de acordar. Imundada de luz. Hoje, atravessada por ela, deixava-me dormir. Sentia-me afundar na cama e deixava-me ir. Em paz.

Sabia de tanta coisa que tinha para fazer. E deixava-me estar. E o tempo fazia-se tarde.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Para bem longe...

Leva-me para bem longe daqui. Para um lugar onde possa respirar. Rouba-me a este lugar onde já não caibo.
Aqui definho. Faltam-me horizontes por desvendar, sonhos por sonhar.
Morreu parte de mim, a que sabia inspirar e expirar. A que me fazia abrir asas e voar.
Leva-me e ensina-me a fazer tudo de novo.

Ele levou-lhe um dedo à boca e fê-la calar-se. Estendeu-lhe a mão que agarrou a sua e puxou-a até si. Vem! Vem comigo. Deixa-me fazer-te evadir deste sítio em que te deixaste ficar. Sei de gestos e palavras, sei de lugares e de cheiros que te farão renascer. Abandona-te aos meus cuidados. Mesmo que só por uma vez. Adia a morte que carregas para quando ela vier.

Ele levou-a. Ela foi. O caminho fez-se de passos lentos e ritmados. Mas de ânsias de liberdade.
Mais tarde ambos levantaram voo para lá de tanto peso que finalmente deixou de ser fardo.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Saudade


Uma caixa estreita e comprida abraçava-lhe o corpo agora sem vida. Nem as rendas e os folhos lhe tiravam a frieza que teimávamos em vão aquecer. Parecia-nos impossível tanto frio sair daquele corpo quando estávamos habituados a rosetas como maças vermelhas a brilhar, uma de cada lado da face.
Tentava imaginar que voltava de novo ao ventre de que um dia tinha sido retirada. Desta vez a mãe seria a terra. O útero, aquela caixa onde depositei a sua ultima oração. E várias flores. As de que ela gostava. Um terço: o que ela desfiava noite após noite. E as nossas preces.
Assim alheava-me da sua partida e preparava-me para uma chegada a um lugar qualquer. Um lugar onde ela me esperaria até um dia nos encontrarmos. Porque também eu faria a viagem. E num qualquer ponto de encontro renasceria como ela o faria agora para pormos a conversa em dia.
Talvez a melhor despedida se traduzisse num "até já" sem data marcada e não fossem precisas lágrimas para um adeus assim. E no entanto em desgoverno elas teimavam em cair porque por algum tempo só nas minhas memórias a vou encontrar. É a saudade que vem para ficar.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Partiste


Era a hora da partida que te assustava mais. O desconhecido. Não saber o que havia para além desta vida que conhecias bem demais. Não te assustavam as agruras, pois conviveras com elas. Fizeram de ti a mulher que sonho um dia ser. Forte e destemida. Mas partir desta vida... assustava-te. Por tanto que deixavas e tanto que querias ainda viver.
E afinal foi só um suspiro o que te separou de nós. Um sopro ténue e deixaste-nos. Mas não te vamos esquecer. Nunca e tu decerto o saberás.
Faltar-me-ão as tuas risadas, o teu humor contagiante que eu queria ter herdado de ti. A tua vontade de viver, de mudar as coisas a toda a hora. De fazer cada vez mais e melhor. De tantos planos sempre novos...
Nem o tempo que nos foi negado pela vida fora nos afastou tanto quanto julgavas. Estás em mim. Em tanta pequena coisa! Como só é possível acontecer entre mãe e filha.
Ainda vou a tempo de te dizer uma vez mais? Gosto muito de ti, mãezinha!

E sabes, quando partiste, foi para dentro dos nossos corações. É lá que te sinto. É lá que te vou guardar. Aconchega-te. A tua viagem continua.