terça-feira, 3 de agosto de 2010

Olhou-a


Olhou-a nos olhos como se de água fossem.
Procurou-a dentro deles.
Enlaçou-a num só gesto e da sua boca provou o desejo.
Navegou então num corpo feito mar, feito onda...
e ele foi barco,
os braços remos
e de proa em riste
foi mar dentro.

E um grito fez-se eco pela noite.

Um dia

Um dia adormeci em teus braços. Embalado em teu silêncio.
Do teu regaço fiz canoa e dentro de ti abri caminhos .
Colonizei cada pedaço teu e em teu coração deixei meu estandarte.
Quando meu sono acabou, também, já eu te pertencia.

E agora só quero, para sempre, adormecer assim.

Rouco


Rouco sussurro-te ainda as velhas palavras.
Não me cansarei de fazê-lo.
Têm a idade dos tempos que fizeram de ti Mulher,
raiz na terra plantada por gota qual sémen, regada.
Vida a fazer-se, desejo a cumprir-se.

Quero-te!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Eis-me


Avanço devagar por ti adentro.
Sinto-te humida.
Recuo um pouco.
Dentro de ti sinto vida. Vida que anseio descobrir.
Murmurios que me chamam e impelem a voltar.
Avanço de novo.
Entre avanços e recuos sinto o teu apelo.
Mergulho então em ti e rejubilo.

Eis-me onde a vida se cumpre no desenrolar dos séculos.

Agora


A príncipio escondias-te de mim. Disfarçavas-te vestindo as roupas rudes da serra que era a tua casa. Deixavas que falassem de ti sem te conhecerem. Um dia abriste-te inteira. Deixaste que os meus raios te envolvessem e se mirassem nos espelhos que dentro de ti se passeiam. Enleado em teus recantos descobri tanta magia que há em ti.

Agora esperas-me em todas as madrugadas. Em todas te entregas e em todas te possuo.

domingo, 1 de agosto de 2010

Espanto-me


Espanto-me no gesto que te surpreende. De mansinho.
Abres-te de encantos que descubro só em ti. Para mim.
Num segredo que guardamos entre nós.
Navego agora nesses mares que em ti embalas e de viagem em viagem acosto em continentes por desbravar.
E o meu desejo é habitar-te!

Há muito tempo...

Há muito tempo que as lágrimas não lhe corriam face abaixo. E agora corriam sem parar. Toldavam-lhe a vista e aclaravam-lhe o entendimento.
Escondera de si o que agora não podia fazer mais. Na sua frente tudo se mostrava como realmente era. E era com isso que tinha de viver.
Percebia agora porque tinha perdido a pouco e pouco a luz, a vida e a garra que tanto lhe era característica. Anulara-se ao negar-se o que sentia.
Deixara de sentir.
A pouco e pouco apagaram-se do seu dicionário as palavras que temia dizer. Para não sentir. E assim perderam significado numa esquina qualquer da sua vida.

Agora ouvia-o com um sorriso que se ia apagando debaixo das lágrimas que lentamente, uma a uma lhe desvendavam o segredo de tanta alienação. Começava de novo a sentir.
E pedia forças ( há tanto tempo que não pedia nada!) para enfrentar a luz de tanto entendimento.

O casulo estava destruído. Não era uma borboleta feliz que de lá saía. Olhar o mundo desta maneira era ainda cedo. Era talvez já tarde. Um casulo em tempo algum resolve coisa alguma. E as borboletas não vivem por muito tempo sejam elas as mais belas ou as mais fortes.

Fossem as lágrimas o elixir da força já que foram a chave da verdade escondida dentro dum peito adormecido...