domingo, 7 de novembro de 2010

Até um dia...


As janelas estavam sempre abertas. Entravam, noite dentro, as luzes, que a cidade adormecida já não via, pela sala onde ela ficava embrulhada no silêncio. Todos já se passeavam pelos sonhos que só os olhos fechados permitem.

Ela esperava.

Há muito que esperava.
Sabia que a essa hora todas as palavras se juntavam num bailado todas as noites desigual.
Ficava a vê-las dançar. Sorria-lhes, dava-lhes a mão num passe mais complicado. Atrevia-se às vezes a convidá-las a dançar com ela.
Tímida. Logo recuava.
Arregalava os olhos e os sentidos para nada perder. Às vezes as palavras atropelavam-se e ela temia perdê-las.
Saíam desordenadas dos sítios a que pertenciam e deixavam de dizer as coisas como notas desobedientes numa pauta.
A musica saia desafinada e as palavras perdiam a vontade de dançar.
Saíam janela fora, talvez procurando a luz e os sonhos que na cidade a dormir aconteciam.

Levantava-se. Ainda ia até à janela. Talvez as pudesse agarrar...

Voltava, sentava-se em frente ao ecrã do computador e tentava, tecla a tecla pintar a dança que vira as palavras fazerem ainda há pouco.

Faltava-lhe a batuta. Essa varinha mágica, sem ela ficara em pousio. As suas melodias seriam escritas em silêncios. Até um dia...

sábado, 16 de outubro de 2010

O primeiro aniversário

Era o cantinho onde fumava. Uma cadeira de verga com duas almofadas. A cadeira viera já de outra casa e de outra divisão acabara ali na varanda ao pé da porta do quarto. Junto a ela uma mesa pequenina. Um cinzeiro, uma moldura com uma fotografia dela , um suporte de incenso e um móvelzito de madeira pintado duma cor antiga a fingir ser armário. Com a porta semiaberta podia ouvir a música do cd que deixava a tocar de acordo com a vontade do momento.
Acendia o cigarro, deixava-se ficar a olhar varanda fora. Olhava quem passava ou então ficava só presa ao que a rodeava. Em frente tinha um armário com livros. Lia as lombadas uma a uma e de vez em quando parava e pensava nas histórias que cabiam em cada uma. Aninhava-se dentro delas. Ausentava-se da vida que se espreguiçava lá fora até que o cigarro acabava. Às vezes deixava-se ficar a ouvir a música até que o cd acabasse. Sabia-lhe bem aquele espaço só dela. Podia até fumar mais um cigarro ou então agarrar um livro e ler.

Foi aqui deixando segredos e memórias. As capas dos livros tomaram a cor do tempo e as almofadas esqueceram-se da cor que, quando novas, tiveram. A verga da cadeira estalou aqui e ali mas, era o canto a que voltava sempre que queria estar sozinha.

Foi quando a mesa pequenina que sempre fora frágil, um dia, num gesto descuidado perdeu uma das pernas que o movelzinho caiu ao chão e abriu as portas pequeninas de forma descarada. Saltou de lá de dentro uma moldura que parou nos pés da mãe virada para cima. Protegida da luz do tempo mostrava inalterada uma fotografia que a mãe logo apanhou. Mas sou eu e o teu pai!

Tinham-se divorciado ainda ela era criança. Ela guardara aquela fotografia que um dia encontrara por acaso. Durante anos estivera preservada no seu cantinho, num lugar secreto. Era uma fotografia dum tempo a que ela ainda não pertencia. A fotografia do primeiro aniversário.
O aniversário dum tempo ainda fresco e por isso feliz.
Inocente e verde, como os tempos serôdios o são.
Dois sorrisos bailavam nos rostos que só as fotografias antigas conservam.
Tudo o mais se foi. Assim como as histórias que só nas memórias que se fecharam para novos presentes.

sábado, 9 de outubro de 2010

memória agridoce


 


recordo os cheiros.
alinhados
como  os dias 
no parapeito do tempo. 
as cores das estações a sucederem-se
com o gosto que ainda lhes
saboreio.
retrato da memória que
em mim
vive.
regresso a um tempo
agridoce que não se deixou
ficar.
vive para além de tudo isto.
 de mim, das coisas,
de ti.
uma compota
eterna
a deliciar-me os sentidos.
dissolvo-a

de

va

gar

a absorver
cada coisa
que agora deposito
com cuidado
num espaço a que chamo
meu.

afinal sou também feito do que já
fui.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A porta



A porta estava encostada. Preguiçosamente encostada. Assim como se não tivesse havido o balanço ou o tempo que tão pouco seria para a deixar no trinco ali já à espera.
Um gesto só e a penumbra abria-se à luz que vinha da rua deixando a sombra esticar-se ainda antes dela ter entrado. Uma música vinda duma divisão qualquer anunciava a presença dalguém. Entrou e espreitou cuidadosamente, pedaço a pedaço, cada canto daquele corredor. Perseguiu o som que cada vez se ouvia mais nitidamente. Porta atrás de porta. Sentiu o cheiro de tabaco no ar misturado com o de café acabado de fazer. Ah, como lhe apetecia um café! E sentar-se... descalçar os sapatos, esticar as pernas... Poisou o saco grande que lhe fazia doer as costas. Foi quando se levantou que o viu. Estava a olhar para ela.
Demoraste, disse-lhe.
Esperavas-me? perguntou-lhe.
Porque julgas que a porta só estava encostada? Sempre espero alguém. Vem.
Abriu-lhe a porta duma pequena sala. A música ouvia-se claramente. Na mesa duas chávenas, um bule com café acabado de fazer.

Mais tarde a um canto dois pares de sapatos. Na mesa um cinzeiro cheio, um bule vazio, duas chávenas sujas com borras de café onde sinas foram lidas. Uma música no ar onde as penumbras anoiteceram e se deitou o cansaço.

A meio da noite ele levantou-se e em bicos de pés foi fechar a porta devagarinho, sem fazer barulho, para não a acordar. Só no trinco.

Ela deixou-se ficar. Ele não voltou a esperar.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Aparentemente


Julgo-me sozinha e estão comigo todos quantos conheci. Nunca me abandonaram. Minha memória inteira alojou-os para sempre em cada pedaço de mim. E sentam-se comigo na mesma mesa e deitam-se na minha cama.
Só no afago e na ternura a ausência se faz presente. Então estremeço e tenho frio mesmo que o rádio me diga que está calor.
Lá fora o tempo passa. Cá dentro também. Numa cadência diferente.
Porque quando abro as janelas a surpresa do que vejo pasma-me. Sempre. Como se tudo fosse novo. E recomeço.
Novas pessoas e memórias, novos gestos e canticos se juntam ao tempo que já passei. Encho de novo a minha casa até agora aparentemente vazia.
Talvez haja afago e ternura que dure por um tempo que se faça Verão.
Talvez seja agora Inverno, não importa.
Há sempre um tempo de fechar as janelas e de guardar o que há para guardar.
Uma casa nunca estará vazia. Só aparentemente.

domingo, 12 de setembro de 2010

Só isto e só desta forma


não me dês nada
que não queiras.
nem promessas que não possas
cumprir.

não te peço nada.
porque nada de ti quero.
nem espero.

não julgues que se por um dia
tocaste o meu caminho
vou esperar que o faças
para sempre
tocando.
ou que se por acaso a minha voz
para ti,
 foi um dia sossego,
será a nota que,
eternamente,
disparará a calma na tua alma
que o anseia...

porque há momentos que serão sempre só isso.
pequenos, grandiosos momentos.
e devemos vivê-los
naquela eternidade que cabe na palma
da mão duma criança.

só isso e só desta forma.

sábado, 11 de setembro de 2010

Haja um regaço!

Estarão as respostas no reverso das lágrimas que te enchem o pranto?

Se assim for deixa que caiam. No meu regaço tas ampararei. Deixarei que aí as descosas e do seu avesso retires os segredos que a tua a alma anseia.
Depois repousa esses teus olhos cansados e alumia a escuridão que agora os envolve. Aqui neste meu peito, onde já moras.

Amanhã, será o dia das lágrimas sorrirem. Em todos os rostos, tocados por ti.
Que percebeste enfim que todos os prantos são filhos dum mesmo rio onde todos os mistérios navegam e onde todos se desvendam.
Haja um regaço e vontade de navegar!