é um aperto o que sinto entre o que quero e não quero. o que tenho e não tenho. entre falar e calar. e aqui fico em sufoco, presa entre o sim e o não até de tudo me apartar.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Sufoco
é um aperto o que sinto entre o que quero e não quero. o que tenho e não tenho. entre falar e calar. e aqui fico em sufoco, presa entre o sim e o não até de tudo me apartar.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Liso, muito liso
Estendi na cama aqueles lençóis que há muito guardava. Têm o cheiro do rosmaninho colhido nos campos. (Lembras-te quanto gostavas do lilás e verde em canteiros inesperados nas incursões que fazíamos pinhal adentro?) Vagarosamente estendi cada pedaço para que nada lhes perturbasse a lisura.
Prolongo-me no tempo para diminuir a espera. Só.
Em tudo quanto faço me estendo, eu sei. Como se assim me aproximasse mais do que me fica longe.
E sem nada pedir. Nem o teu regresso procurar. Por onde vou só existe o que está para amanhecer.
Um dia colherei rosmaninho no teu corpo e tu em mim como se fôssemos pinhal adentro e deixaremos que o seu cheiro nos embriague. Não fará mal. Teremos sempre esta cama, estes lençóis e o tempo que estendermos nela. Liso, muito liso, para que nada o perturbe.
sábado, 2 de abril de 2011
não
não me guardes para as tuas memórias. guarda-me antes agora no tempo que pode ainda ser nosso. agarra a mão que te estendo. dá-me o ombro que te peço. hoje!
não há outros tempos para nós, meu amor.
vejo teus olhos perdidos, as palavras soltas em debandada e a correria desajeitada pelos lugares que temos ainda por fazer. uma pressa desmedida de quem nada pode deixar por fazer.
e um abraço a pedir colo no teu peito em sobressalto.
sossega, agora, comigo. deixa o tempo respirar pausadamente. que nos beije a pele deixando-lhe a sua marca sem que o pressintas. vê-me com o olhar fresco das manhãs, mesmo que às vezes orvalhado, e entardece na minha companhia.
assim não precisarás de me lembrar. porque sempre lá estarei.
não há outros tempos para nós, meu amor.
vejo teus olhos perdidos, as palavras soltas em debandada e a correria desajeitada pelos lugares que temos ainda por fazer. uma pressa desmedida de quem nada pode deixar por fazer.
e um abraço a pedir colo no teu peito em sobressalto.
sossega, agora, comigo. deixa o tempo respirar pausadamente. que nos beije a pele deixando-lhe a sua marca sem que o pressintas. vê-me com o olhar fresco das manhãs, mesmo que às vezes orvalhado, e entardece na minha companhia.
assim não precisarás de me lembrar. porque sempre lá estarei.
quarta-feira, 30 de março de 2011
Não sei
Não sei porque te foste. Como podia saber, se nem de ti sabia? E no entanto estavas em mim, como se não fosses outra coisa senão aquilo que eu era. Como se me pertencesses desde sempre e não fosses para além de mim.
Tu, a semente. Eu, a terra no abraço côncavo. Tu, a água. Eu, a sede. Tu, a nascente. Eu, o leito das tuas águas feitas palavras, tantas vezes grito.
E eu, tua voz.
Fica agora o silêncio, áspero, num uivo longo, longe.
Espero-te no alto da brancura de coisa nenhuma.
É o relógio que ritma a espera. Pausadamente.
Cá dentro o coração. Mal o ouço, mal o sinto. Nada interrompa a tua vinda.
Quando voltares, vestir-te-ei de vermelho. Pintarei teus lábios e teus olhos. Pentearei teus cabelos duas vezes ao dia. Ah! E antes de te deitar cuidadosamente a meu lado, banhar-te-ei. Perfumarei teu banho com misturas delicadas de lavanda e alecrim. Deitarei teu corpo molhado na minha cama e secá-lo-ei beijando-o.
Assim não mais te perderei de mim. Mesmo que ainda te vás.
quinta-feira, 24 de março de 2011
O meu sorriso
ilustração de Pedro Rocha Nogueira
Aquece-se da ternura das tuas mãos, sábias de tantas palavras fazerem falar. Pendura-se em desequilíbrios temporários nestes lábios que teimam em guardar memórias dos teus. E voa.
Na ânsia de viagens e murmúrios, de segredos e paisagens que dentro de mim sonhou.
(E acreditas, amor, que foi entre lágrimas que este sorriso se fez assim?)
segunda-feira, 14 de março de 2011
O tempo, pássaro
E porque já te sabia ainda antes de te conhecer, pode ser no escuro, meu amor.
As minhas mãos encontrarão o caminho. Os meus olhos guiados pela tua voz, tingida já na minha, guiarão as vontades que guardámos para agora.
O teu cheiro, antigo como os sonhos de que tenho memória, embriaga de lucidez este corpo que é já teu.
Sou a pele que agora te dou a vestir. Descasas cada botão com a pressa na ternura que os teus dedos, ágeis, desenham como pincéis.
É nas ondas do meu corpo que navegas como se há muito o fizesses.
Pedes-me palavras que só em gestos consigo devolver. Gestos convulsos, desordenados onde as palavras se fazem de gemidos.
(Olha-me, meu amor. Lê-me só. Com o teu corpo, minha pele. Um só, num mesmo ressoar de corpos. Melodia do fundo dos tempos.)
Dois corpos nus, repousam lado a lado. Ele fuma um cigarro.
Ela olha-o. Está tranquila. Ambos estão.
As conversas fluem, o tempo passa.
Há uma leveza transparente no ar. Sorrisos, muitos.
Separam-se. Ele diz, o tempo passa a voar. Ela corrige sorrindo, o tempo, pássaro voa.
Riem
Ela não sabia mas, tinha já tomado todas as decisões.
terça-feira, 8 de março de 2011
A noite dos tempos
A cabeça pousada na mão aberta, o olhar vazio pendendo. A noite dos tempos a acontecer.
Ainda agora a luz se fizera e eu sentira o calor do teu abraço. Ainda agora. E tão cedo se tardou.
Sobram-me razões para tanta ausência. Como brasas em fogueira que teima em não se apagar. Aqui, dentro de mim. Neste peito que deu guarida ao teu. Um dia.
Para sempre, prometemos. E não sabíamos de nada, então.
Se um dia te vir outra vez, que palavras te direi?
Temo que tenham secado no deserto que o fogo semeou quando te foste.
E assim, só no silêncio poisará o nosso olhar.
Para sempre, não existe, meu amor. Só no meu peito que teima em não te esquecer.
Mas esse é louco e não sabe de nada, ainda!
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