segunda-feira, 4 de junho de 2012
dos insensíveis
dos insensíveis direi que me rasam
a pele,
sim. a escrever memória
neste livro aberto e sempre
fresco
da palavra, incenso
e do gesto molhado na ponta da língua
que me desfolha os dias
sem que os perca
entre
as vontades e os lamentos.
direi também que por eles sentirei
a cegueira
traçada pelas coisas inúteis.
e só o corte da faca afiada
me rasgará a carne
para separar
as folhas.
eu estarei sempre do lado
de lá.
ser
como se tudo fosse possível
nas asas de ondas
caminhos de gente a quem nada
basta.
e ir por aí.
largar as amarras
de deuses menores
e a dança
entre os dedos
onde habitam os nós.
ser da própria vontade
o desejo
final
mesmo no manso
mar.
domingo, 3 de junho de 2012
num país inventado
que de amores se morre
se falta, se tem.
e a dor se sente a moer
a gente,
no avesso da pele.
e rasgam-se os nomes
na dobra puída
dum tempo
passado
em trocas de assentos
de reis de brincar,
num país inventado
que nos deixou
de amar.
espanto
preciso do espanto, como
de ar. e confirmo as certezas
nesta falta
de oxigénio que me tolda
a respiração.
os que me desiludem,
sempre certeiros. enquanto
lhes apronto colo.
os que se adiam, quando
os espero.
os que não são, quando
inteira me dou.
os que tudo falam, sem
nada dizer e eu
tudo calo.
e este tempo que nunca
muda
e eu finjo que dele
tudo sei, e a ele me
moldo,
rouba-me o brilho da surpresa de desdobrar
este presente
como se oferta fosse
e deslumbrada, ficasse.
e é só peso que sinto nesta mentira
a cobrir-me.
preciso do espanto, como
de ar.
sábado, 2 de junho de 2012
os ninhos
há ninhos no colo das palavras
onde histórias
nascem encostadas
no pasmo
inocente da fila aprumada
em escadarias
a descer
o contorno dos dias.
apagar histórias
apagar histórias com enredos que não têm
linhas nos novelos que
saem das tuas mãos,
com a secura que corre o deserto bravio das
paisagens que o vento esborratou
quando passou nos meus
olhos, de mar cheios.
é tudo quanto este dia
de cinzas
coberto
me deixou.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
a tua mão
de súbito a tua mão pequenina no meu braço
a apertar-mo
como se fosse ancora a procurar abrigo
num cais de tormentas
batido.
e uma onda a cair na vertigem
dos olhos de gente alta a olhar de cima
bateu na amurada do colo que ainda
tem a tua morada
e a chave
guardada debaixo do mesmo vaso
onde agora nascem ervas
com o cheiro
do teu abraço.
mesmo grande, terás a altura
deste ventre
onde te deito nos teus medos.
Assinar:
Postagens (Atom)
