quarta-feira, 20 de abril de 2016

medo

Um medo a cobrir-lhe os olhos. De estar sozinha. Não se vá embora, não? E a mão estendida a dizer vem cá.
Fico-lhe muito agradecida . E prende na concha da sua mão, a que chega.
Já se foi embora a senhora do lado? Esquece-se que agarra a mão dela. Da senhora do lado.

Só não esquece o medo.

Isto para os velhos é ruim

De dia sumia-se. Um sopro lento. Quase apagado. E o olhar perdido. De vaguear num tempo esquecido. Isto para os velhos é ruim. Dizia de tempos a tempos . Como que a pedir sossego.
Era a noite que lhe trazia as batalhas. As mais duras. Já me deu mais vezes? Não sabia de onde lhe vinha a aflição. E no meio do cansaço prometia. Eu vou arribar.
E arribava.

no teu colo

No teu colo o vazio. Onde estendo os meus braços. Na sementeira da esperança. Que outra coisa não sei fazer. Digo-te que tudo vai correr bem. E rezo como se fosse o remédio de todas as coisas.
Amanhã é o princípio de todos os dias. De todos os sonhos. Deixa que aqui guarde todas as tuas dores. Longe de ti.
As minhas mãos estão habituadas a semear. Aprenderão a rezar. E da sementeira virá a flor.

o fim

espera-nos o fim. 
numa data qualquer. até lá, 
a viagem a acontecer nos dias. crochetados entre lágrimas 
e risos.
lavor que incendeia os passos. 
um a um.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

das palavras

já não sei das palavras. perdidas que andam da minha voz. acoitada no silêncio. xaile dos dias mansos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

o lugar de todas as maravilhas


tinha na cabeça o sonho do circo. lugar de todas as maravilhas. a casa da magia na ponta dos dedos.

e todos os dias se somava nas habilidades a que o corpo pequeno se ajeitava. Subia as escadas do avesso. trepava árvores, mais e mais alto.

 
trabalho de Erica Campos

no ramo desamparado onde os baloiços saltaram para mais longe que ela, dava voltas no desiquilibrio que a levava mais alto. nas gargalhadas.

que o chão ficava-lhe rente ao corpo, solto das tropelias. eram os joelhos arranhados que a levavam a casa. entre lágrimas e ais.

trabalho de Erica Campos
 ao colo da mãe, mirava-lhe os olhos onde brilhavam estrelas. tão perto. mais perto que as altas árvores e os saltos de querer ser gigante não deixavam alcançar.

e era quando o pai chegava, no abraço apertado que ouvia os aplausos dentro do peito a bater.

no quente da cama, aninhava o leão de pêlo. quando as luzes se apagavam, abria as portas ao sonho, embalada pela voz da mãe.

e a magia acontecia. todas as noites. mesmo que não houvesse circo.

a mãe e o pai eram o lugar de todas as maravilhas. a casa da magia na ponta dos dedos.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

diz-me

diz-me. deixa resvalar a bravura das palavras. neste tempo quieto. amansado. por gente que nada sabe de ti. diz-me a vontade que fechas no vale das tuas mãos.
diz-me. nos meus ouvidos só cabe a tua voz. mesmo que os silêncios a calem.
ouço-te. no resvalar da pele.