quarta-feira, 31 de março de 2010

Abençoada

Por este sol, por este dia. Por tudo quanto posso alcançar. Pela vida que vivi. Pelo que ganhei e perdi para ganhar. Pelas portas que se fecharam e por muitas mais que se abriram. Pelos sorrisos e pelas lágrimas. Pelas ausências que me fizeram sentir quanto precisava das presenças. Pelas presenças que me confortaram. Pelos amores e desamores, alegrias e tristezas. Por te ter e te perder, ganhando-te para sempre dentro de mim.
Por tanto de que ainda me lembro e por tanto que já se foi das minhas memórias. Por aquilo que me deram e por tanto que me tiraram. Pelos anos que vivi e pelos que tenho pela frente. Pelos amigos e pelos outros.
Pelos filhos que adoro. Por aquilo que lhes posso dar e fazer. Por tudo quanto eles me dão.
Por estar viva. Por ser mortal.
Porque por tudo isto, sou quem sou e tenho o que tenho.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Lugares


Há lugares que ficam ligados para sempre às nossas vidas mesmo que neles tenhamos estado por breves instantes. Ficam depositários de memórias que se reacendem ao revisitá-los. E basta um vislumbre, um odor ou um som e voltamos ao que fomos. Como se não houvesse tempo de permeio. O tempo fosse só um presente contínuo. A respiração acelera, o coração bate mais forte e os sentidos mais alerta fazem-nos ser hoje de novo o passado que não morre nunca.

Há lugares que são ancoras, portos de abrigo, que não nos deixam esquecer quem somos e o que somos. Que nos lembram os caminhos percorridos e ajudam a ver os que estão por fazer. Que fazem parte de nós.
Por aí. Ainda por desvendar.

Podia


Podia percorrer ainda os mesmos caminhos. Fazê-lo nas mesmas horas. Com o mesmo propósito.
Podia continuar a imaginar-te de mãos nos bolsos caminhando tranquilamente nos mesmos fins de tarde , fizesse o tempo que fizesse. Podia, meu amor.

Tenho ainda o rio e o cheiro a mar ali tão perto. O roncar do farol ou o coro das gaivotas atrás dos barcos que chegam da pesca. Todas as histórias vividas pelos personagens que te acompanhavam nesses passeios solitários e te faziam regressar em paz a tua casa.
Não fora a doença traiçoeira e ainda te veria por ali. Como vejo todos os anos florescer a Primavera e entardecer o Outono em cada árvore que te amparou ou deu sombra.

E tenho de te deixar ir.
Um dia quando te souber chorar. Talvez assim te vás no caudal das lágrimas que, então consiga deixar cair destes olhos que teimam ainda em querer-te ver.

domingo, 28 de março de 2010

Sombras


Como partindo, ficamos ainda na réstia das memórias que teimam em não nos deixar. Serão só sombra, quase nada, mas permanecem. Fazem-se dor, daquela que mói, surda e cega porque lhe negamos a luz e a trancamos dentro de nós. Cremos que assim, ignorando-a, a aniquilamos. Tolos, deixamo-la crescer. Cada vez mais.

E nem este mar revolto com uma fúria nunca vista, meu amor, tem o poder de calar o grito que se desprende, já sem açaimo. Dizem-no as lágrimas feitas rio que se soltam na bravura das ondas que me rebentam nos pés.

sábado, 27 de março de 2010

Os "namoros"

Ao meu lado os risinhos irritantes e a vozinha mimada duma pré adolescente desviam-me a atenção da paisagem relaxante do mar. Senta-se ao colo, onde mal cabe, daquela que suponho de imediato ser a namorada do pai. As duas brincam como duas crianças sob o olhar nervoso do pai e algumas chamadas de atenção para a mais nova.
O jogo de sedução continua bem ao agrado da adolescente que invade o terreno da mais velha sem que esta se imponha. Deixa-a remexer a carteira, espreitar tudo quanto está no telemóvel como se não houvesse limites na sua privacidade.
Só o pai com algum receio vai chamando a atenção usando os dois nomes da pequena alertando-a para o facto de estar a cansar e a abusar da paciência da namorada.
Sim, porque pelo que não pude evitar de ouvir, esta é a namorada do pai. E a cena que presenciei foi uma cena de namoro entre namorada e filha de namorado como ela própria por brincadeira a define.
Fico por momentos a pensar. Em tudo o que envolve estas cenas de sedução e namoro. Nestas relações de quase competição. De quem ganha e de quem perde ou se há apenas vencedores.
Agrada-me pensar que nunca é demais a atenção que se dá a uma criança. Venha ela de onde vier. Nunca são demais os afectos. E que é bom que quem partilha momentos com os nossos filhos os saiba seduzir, amar quase tão bem como nós. Mas saber também que para os ganhar não é preciso fazê-los perder: os valores que lhes transmitimos, o saber, os caminhos que lhes ajudamos a traçar, o farol que somos nós afinal.
Que alguém tenha o bom senso de ser o fiel nesta balança. Porque as crianças, os adolescentes também amam quem lhes diz não, se souberem a razão.

sexta-feira, 26 de março de 2010

ainda assim


ainda assim.
com a teimosia ritmada dos dias
a deitar-se no meu corpo.
a fazer desta pele,
onde os teus dedos hibernam,

outra que teus olhos estranham
por já não a saber.

ainda assim.
me faço cama se em mim quiseres
pernoitar.




quinta-feira, 25 de março de 2010

A dois


Era o tempo e a distância que os afastava cada vez mais. E, no entanto, em tanto espaço crescia um amor que não se explicava. Enchia o peito de tal forma que mais nada nem ninguém lá entrava. Ela já nem entendia como podia ser assim se um dia se tinha despedido dele. Sentira então que tudo tivera o seu final. Enterrara aquilo que não deixara viver. Mesmo assim de tempos a tempos deixava-se revisitar por aqueles sentimentos que julgava para sempre enclausurados no passado. E como desejava avançar! Perder-se de vista de tudo quanto vivera para poder de novo respirar sem desejar senti-lo de novo. Encher a memória de novas canções e outros trajectos, desejar outros abraços e afectos. Querer, sentir por outro o que por ele ainda sente e não quer mais.

Era o tempo e a distância que os aproximava cada vez mais. Porque se deixavam viver na eternidade das memórias. E as memórias não se compadecem de finais que afinal não o são.