quisera dizer-te...
suspiros de alma ao bater do coração
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
inútil
inútil.
preso nas mãos amarradas
e nos passos cortados
o grito sufoca
surdo.
a palavra
nasce inútil
corta afiada
as entranhas
do ventre fértil
na dor
a parir
futuros
que ninguém
desejou.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
desfeita papoila
desce-lhe surdo,
vermelho
fio.
desfeita papoila
em campo de trigo.
e um rio de fogo
repele
a semente
que no seu leito
colheu.
segredo
importa-te assim que me encoste aqui
ao lento tropeçar das sombras
esquecidas, já
de tantas velas queimadas
em noites
que o teu corpo
no meu
bebia?
deixa que as esconda no quarto
onde murmúrios
acesos nas pérolas
do teu olhar
traçaram na tua pele
caminhos
que ainda agora
percorro
inteiros, todo o tempo.
é em segredo que pinto as tuas mãos
abandonadas de nós
que invento a cor
e dou voz
à boca que beijei
e deixou
de sorrir.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
vidas
o copo olhava-o
na mesa, sem luz,
os olhos fugiam para longe
sem nada esperar.
da boca um gemido
que já não sabia
da palavra
que tudo podia falar.
e um corpo vergado
no fumo pelo ar,
as cinzas
dum homem
sem pernas
para sonhar.
há vidas
que antes de nascer
já foram
a enterrar.
pesada
assim que me fui
senti-a bater,
pesada,
a porta
que antes
se abrira para mim.
voou-me
dum grito
sem asas, o pássaro,
que no ninho
do peito
se abrigara
ferido.
não entra mais gente
mandaste dizer
fechado
no fundo
dum dia a morrer.
domingo, 1 de janeiro de 2012
não, o mar não dorme.
caíam tardes no regaço
da praia
calada agora,
quase adormecida.
embalava-a o mar
com velhas canções,
versos
que bordava
a espuma pelo areal.
e os jovens amantes
levavam no peito
a palavra acesa
dum verso
roubado
não, o mar não dorme.
escreve os sonhos
de gente
que encosta as pestanas
à noite.
para que não
lhes faltem
palavras.
inocente
mirou-se inocente
na cara lavada do dia
que veio
atrás do que foi.
guardava entre os dedos
o espasmo
da dúvida
que o tempo entre tanto
já fizera de si.
o espanto
caiu-lhe dos olhos
abertos, redondos,
o tempo mudara
e tudo era
igual.
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