segunda-feira, 7 de novembro de 2011

teimosamente


teimosamente, reclinam-se no parapeito da luz
esvai-se-lhes o calor.

(traição)

há frios que percorrem os corredores vazios
à procura de corpos vadios.
disfarçados, entram-lhes dentro
percorrem-lhes as veias, bebendo-lhes o líquido da vida.

saqueadores de almas.

depois deixam que se iludam
e que teimosamente se reclinem em parapeitos
onde já lamberam a luz.

(traição)

há sempre mais um vadio em cada esquina.

só os sinais


era nas noites transparentes
quando os ventos
se afastavam lentos
para longe dali
que voltava aos sítios
onde depositara
as ultimas flores

só os sinais restavam

caía enrolada em si

acordava entre risos
brincadeiras de outros tempos

ali onde enterrara
um amor
julgado morto
vivia, num útero
impossível
um maior ainda a crescer.

domingo, 6 de novembro de 2011

Trancar

Trancar
o desejo nas profundezas
da pele.

Longe dos afagos
dos teus olhos
e das carícias
das tuas palavras.

Na secura
destes tempos,
a fagulha desses dedos
faria em mim
a fogueira
que ainda em brasa arde.

vermelho sangue,
ferida aberta.

Muita água
correrá a apagar
este peito incendiado.

Deixa o vento soprar
as cinzas
a primavera brotar.

Nos primeiros botões,
o desejo em flor.

sábado, 5 de novembro de 2011

Nunca mais

Estancar as feridas
que a sol aberto
se escancaram
como se mais nada
pudessem fazer.

Colher-lhes a dor
e fazer com ela
em proveta improvisada,
a espera de
nunca mais.

(Não se partam as provetas
nem os futuros tardem
que a esperança quebrada
é uma ferida maior)

(não há dor que se disfarce)
e as esperas são inúteis.

Espelho


Éramos um espelho a mirar-se.
E ajeitávamo-nos
na ternura dos gestos
na candura das palavras
no desalinho do que houvesse

Éramos
enquanto nos tivemos
perto um do outro

Foi quando nos alongámos
que as imagens se distorceram
e não houve mãos nem dedos
com distancia para
os gestos se fazerem

e um remoinho feito de palavras
afundou-nos

não houve nada
que lá chegasse para nos salvar

as palavras de amor
ficaram estendidas nas margens
à espera de sóis que as secassem

molhadas, pesam
e doem, as que só sabem das ausências

Éramos um espelho.
afogámo-nos.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Vestir é difícil, despir é fácil


Vestir é difícil,
encontrar o que nos assente
nas formas do corpo,
nos deixe ser como somos,
nos faça parecer
ser ainda melhores

vestir é difícil
cobrirmo-nos de conforto,
de prazer sem
tirarmos a liberdade
ao corpo que transportamos
e deixá-lo a ele também
ser o que lhe queremos dar.

vestir é difícil
descobrir no espelho
que somos ainda
aqueles que mesmo nus
ainda éramos,
apesar de agora
termos algo a
completar-nos.

mas...

despir é fácil
basta desapertar fechos,
desabotoar botões e
nem que seja preciso rasgar,
tudo quanto vestirmos
sairá de nós.

se me perguntares
como sei,
dir-te-ei
que
ainda agora o fiz

quando de ti,
me despi.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

de repente


de repente percebeu
tudo tinha acabado, já.

como se não houvesse passado.
e hoje fosse apenas
uma tela clara
e aí pudesse pintar
todos os amanhãs
livres de memórias empoeiradas
e cheias de arestas por polir.

sorriu
e sacudiu o que pudesse
restar.
nada lhe gotejou
por entre os dedos
que agora
se aprontavam a escrever
palavras esquecidas.

há sempre um
tempo que espera
a cadência dum poema