segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

demora quanto quiseres


perco-me em labirintos de memórias treinadas na rotina cinzenta dos dias. soltam-se de cor as palavras destemperadas que em urgências se perdem por não ter lugar. as almas vagueiam em dicionários vazios onde se escrevem ocas e lamurientas. ostentam sorrisos, apenas farsas, a navegar em lagos que se penduram em quedas que lhes afogam os dias.
já não sei quem sou, nem quem tu és. e para que corro, se não o faço contigo. afinal passamos descruzados, carregados de nós e dos outros disfarçados de ausência para não vergar.

paremos, olha-me nos olhos e repete-me o que vai dentro de ti. não deixes que só o suspeite ou adivinhe. tatua-mo. sou o teu livro em branco. revela-me o que escondes nas pregas desse teu sorriso amarrotado.

demora quanto quiseres. não me vou sem que desembrulhes o silêncio que cala tanto que tens para me dizer.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

esta terra

em desertos de frio, sonhos fugazes
dum sol
a dourar fogueiras.
são terra que já esqueceram as mãos
aquecidas
prenhes de vida que
se lançam
no sopro dos ventos.
na barriga esfomeada da terra.

há um choro prometido
neste céu
a calar a boca de tanta sede
e a palavra
feita flor

ouvir-se-á pelos campos fora.

nem pisada,
se amordaça

a força desta terra.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

ser em ti




…
abrir-te as mãos, esticar um a um os dedos longos que te crescem a fazer perto. encher os espaços vazios de carícias mornas dessas estrelas que moram nos teus olhos. nos teus ouvidos destapados murmurar-te os segredos que sempre te pertenceram e em mim viviam. mergulhar nas ondas do teu cabelo e serenar-te no abrigo do meu peito, em todos os dias. aparar-te as palavras com a fome dos meus lábios. guardar-te inteiro na sede do meu abraço.
ser em ti como és em mim.
…

nuvem


descerro a noite que cai no colo onde embalo a escuridão e a meu lado as sombras deitam-se devagar. desnudo-me. não preciso desta pele que me cozem os dias e me sufoca as batidas do coração que abrigo em todas as caminhadas. respiro enfim na ausência dos olhos que a luz convoca o ar que me é devido. em tudo me atravesso e confundo porque nada sou para além desta transparência de que me faço. gota de água que um dia se faz nuvem.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

pela ponta da língua


sabem-me à falta que em mim
navega
o sabor dos lábios,
rosa aberta,
que pinto em carmim
pela ponta

da língua que te abraça.

numa valsa
tocada por ancas acordadas,
acendem-se fogos
onde as chamas
bailam no mar da tua boca.

é aí que me afundo e me deixo morrer .
no desejo
de sermos

um.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

és a ilha


não havia ninguém para além de nós. gemia no ar uma velha canção em que habitávamos. éramos o refrão dorido que a guitarra deixava no ar. em cordas esticadas a gritar. e colávamo-nos ao ombro desboroado do tempo antigo. cuspo de ilusões a céu aberto. pés como chumbo em lodo, terra fingida, a levá-los por caminhos, onde cegos, nos desencontramos da luz que sabia as nossas histórias. somem-se as memórias na negrura. escorre no ralo do tempo a ternura que nos cobria a pele. na nudez enrugada encobre-se agora esta ânsia de longe e nunca. em lugares encobertos deixamos de ser. tu ausentas-te de mim. és a ilha a que um dia aportei.

viajo agora numa pauta em construção. despida, ainda.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

não era tempo


deu-lhe as mesmas respostas. depois das mesmas voltas. como se nada tivesse mudado. restavam-lhe aqueles olhos, ainda que ausentes. aquelas mãos à distância do toque.
o resto viria. sabia-o. tinha dentro dele um espaço vazio onde cabiam todas as incertezas. era feito de esperas. e não o sabia.
limpou-lhe água a sobrar no canto dos olhos num beijo a fazer-se devagar. e não lhe cresciam palavras na boca que lhas pudessem secar.
ajeitou-lhe o cabelo para lhe ver os olhos descer. saiu.

não era tempo ainda de ali estar.