domingo, 24 de março de 2013

descompasso


o tempo enfeitou-se como pode. e a espera ajeitou-se entre as ruas molhadas no fresco das águas paridas da brancura que as nuvens vestiram. como se festa fosse. e o meu coração gemia no descompasso de te não ver. ainda. havia um relógio. mudo. que não dizia as horas de acontecer. e eu sabia as horas de já estar. nessa arritmia fugiam-me os braços, pesados para onde te queria. ali mesmo. naquele chão.
e quando tudo se fez era já tarde. por tão cedo te querer.

sábado, 23 de março de 2013

os beirais


olhar de frente a luz, mesmo quando ela se vai. e se desfaz nos olhos, escancarada. saber da ultima vez, no parapeito do tempo. e o próximo passo não caber onde se quer. para lá de onde tu sabes, há promessas que não pedes e te caem nas mãos. pesadas de despedidas. e o teu corpo acostumado dói na batente onde se quebra a esquina que não havia. troveja e não se prevêem andorinhas de volta ao ninho. faltam-lhe memórias de cheiros e sobram penas antigas.
é a chuva a cair que adormece os beirais à beira dos pesadelos.

a sede de mar


na boca, a sede do mar. a altura da onda no sonho de alcançar. o longe que agora fica para além da linha onde acaba o meu olhar.
e nos braços a força faminta de navegar.

quinta-feira, 21 de março de 2013

não me peças nada hoje.


não me peças nada hoje.
entreguei todas as palavras que sufocavam no silêncio onde se fecharam. num suícidio lento. onde as mãos inúteis se refugiaram em despedidas para lugares que desconheço. exiladas. de mim.
rendo-me a este corpo vazio. onde habita  toda a ausência e nada me pode faltar.
não me peças nada hoje.

quarta-feira, 20 de março de 2013

uma nova canção


caiu-me no colo a primavera, num prado verde onde dorme a esperança. que acordo. num sopro tépido onde as palavras nuas se deixam beijar. e o fruto, faz-se livre nos lábios que tecem uma nova canção.

terça-feira, 19 de março de 2013

o sinal


a ultima coisa que viu não foi  sinal de coisa nenhuma. atenta a tudo o que via. nada lhe dissera para onde ia. e o que fazia ali naquele intermeio onde as palavras não se faziam de coisa nenhuma. porque nada havia. um silêncio sibilante que atormentava os ouvidos e a fazia voltar onde não pedira. a um tempo de não olhar. de pedir que tudo passasse logo e nada fosse para além dum zumbido irritante a perder-se onde não se esforça em procurar.
um sinal, então, de que nada havia a fazer. ou a dizer. fechar os olhos e deixar-se ir. sem qualquer tipo de sinal.

segunda-feira, 18 de março de 2013

marinheiro


que lhe está no sangue o marinheirar. partir no cedo das ondas ainda deslumbradas do luzir que lhe conta as histórias doutros mares. estrelas que um dia partiram em barcos de não voltar. e cruzam-lhe os olhos sedentos na fome de viajar.

veste-lhe o corpo, um mapa onde se cobre de mar. esperanças e desalentos temperados no sal do seu olhar.