quarta-feira, 19 de novembro de 2014

ser mãe

ser mãe nasce nos dias. de comer, de vestir, de ralhar e acarinhar.
nasce nas noites de deitar, de dormir ou acordar.
nasce dos gestos. dos nãos. do sim. do abraço. do riso e da lágrima.
nasce a cada passo. e não cresce só quem fica mais alto. também quem os vê esticar.
nasce na dúvida de todos os dias e no desejo de saber mais.
ser mãe é o príncipio. nada mais. mesmo que margem mãe não prende. conduz.

e só nesta travessia se nasce mãe. no vagar dos laços.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

pouca terra

morreu. esperava-lhe o sobressalto. e as memórias caiam-me no regaço. já não sei se sorria ou se apenas guardava aqueles dias de pouca terra nos meus olhos. esquecidos da estrada. que já sabia de cor. e um pedaço de asfalto cobria-lhe os restos. mirrados. há muito que as ervas cobriam a campa das minhas viagens. pouca terra, pouca terra...

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

dizem

dizem que nos fica dentro. mesmo que partam. os que nos enchem os olhos e da boca nos sai o nome todas as vezes que chamamos alguém.
ai, como pode ficar inteiro quando é tanto o que lhe queremos e tão pouco o corpo. amarrotado de ausências!

sábado, 8 de novembro de 2014

ai

há olhos que são de mar e nunca uma lágrima deitaram. ai de quem neles se deixa afundar!

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

esperança

porque o verde tem nome de espera(nça). o tempo de crescer, promessa em botão seja onde for. pequenas que sejam as coisas. até nós, ainda. no querer. e o tempo que atravessamos até crescer se encha de todas as primaveras. mesmo que tardias ou precipitadas. ou até outras que não havíamos pedido. que sejam verdes, os anos, na inocência de ainda acreditar!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

de nada valho


agora nada valho. tudo custo a quem dou sustento. e parcos são estes bolsos. que mãos doridas cozem no alinhavo dos dias.
e é a brandura que me aquece o peito, (falte o sol nas manhãs, cisque o vento nas janelas,) que te alumia os olhos, ainda.
do pouco que de mim fazem sei que te sou muito quando me pedes encosto. na friura das noites. ainda que altas vozes entoem o verão lá fora, é em mim que acendes a primavera. e te fazes rapaz. outra vez.
quando eu me for. quero silêncio. porque as palavras, essas sim, digo-te eu, de nada valem.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

a dor

no segredo da pele. a dor.
a voz apertada. dum qualquer mal.
a mordida do cão.

ao longe a carícia emprestada
ainda presente na memória dos
gestos
petrificados.

no segredo da pele. a lágrima.