por
onde os teus olhos se quedam. no espanto. da vida colhida nos vales do
meu corpo. rios que correm entre as margens que pedem as tuas mãos.
terra que conhece o teu cheiro. como se flor fosses na alvorada da minha
pele.
quinta-feira, 21 de abril de 2016
quarta-feira, 20 de abril de 2016
Se fosse árvore
Se fosse árvore não morreria nunca. Pelo menos no tempo das nossas memórias. De tanto durar. De tão forte ser.
É mulher e aquelas pernas já galgaram campos, aqueles braços muito peso levantaram.
Agora fica-se aqui. E ninguém a acode. O Manel Cardoso vem-lhe à boca nos momentos de aflição. E se demora prefere morrer. Nunca assim se viu. Quando ele chega pergunta-lhe onde está. Perdeu a memória dos lugares. E das perguntas que faz. Repetidamente.
Oh senhor, ajude-me. Não me deixe aqui sozinha. Ai que nunca fiz mal a ninguém...
Por aquelas mãos, agora impotentes, já se esventrou a terra. Já se matou a fome aos filhos. Agora não.
Se fosse árvore talvez bastasse dar-lhe água.
E não se ouviriam os gritos.
É mulher e aquelas pernas já galgaram campos, aqueles braços muito peso levantaram.
Agora fica-se aqui. E ninguém a acode. O Manel Cardoso vem-lhe à boca nos momentos de aflição. E se demora prefere morrer. Nunca assim se viu. Quando ele chega pergunta-lhe onde está. Perdeu a memória dos lugares. E das perguntas que faz. Repetidamente.
Oh senhor, ajude-me. Não me deixe aqui sozinha. Ai que nunca fiz mal a ninguém...
Por aquelas mãos, agora impotentes, já se esventrou a terra. Já se matou a fome aos filhos. Agora não.
Se fosse árvore talvez bastasse dar-lhe água.
E não se ouviriam os gritos.
91 anos
Tem
91 anos. Uma mulher escorreita Olhos verdes. Vivos. Como a voz que
fala das coisas como se fossem todas simples. Nunca casou. É o segredo
dizem as enfermeiras. Uma arrisca mesmo dizer que assim sendo viverá
até aos 100.
Ai menina se soubesse da minha vida!
A mãe morreu cedo. Deixou-lhe no colo 4 irmãos. Criou-os na altura. Cria agora os filhos dos filhos.
A voz forte a ressoar pelo quarto faz-se quase inaudível quando lhe pergunto de que morreu a mãe. Tão nova!
Sussurra, de cancro.
E fazemos silêncio.
Ai menina se soubesse da minha vida!
A mãe morreu cedo. Deixou-lhe no colo 4 irmãos. Criou-os na altura. Cria agora os filhos dos filhos.
A voz forte a ressoar pelo quarto faz-se quase inaudível quando lhe pergunto de que morreu a mãe. Tão nova!
Sussurra, de cancro.
E fazemos silêncio.
medo
Um medo a cobrir-lhe os olhos. De estar sozinha. Não se vá embora, não? E a mão estendida a dizer vem cá.
Fico-lhe muito agradecida . E prende na concha da sua mão, a que chega.
Já se foi embora a senhora do lado? Esquece-se que agarra a mão dela. Da senhora do lado.
Só não esquece o medo.
Fico-lhe muito agradecida . E prende na concha da sua mão, a que chega.
Já se foi embora a senhora do lado? Esquece-se que agarra a mão dela. Da senhora do lado.
Só não esquece o medo.
Isto para os velhos é ruim
De dia sumia-se. Um sopro lento. Quase apagado. E o olhar perdido. De
vaguear num tempo esquecido. Isto para os velhos é ruim. Dizia de tempos
a tempos . Como que a pedir sossego.
Era a noite que lhe trazia as batalhas. As mais duras. Já me deu mais vezes? Não sabia de onde lhe vinha a aflição. E no meio do cansaço prometia. Eu vou arribar.
E arribava.
Era a noite que lhe trazia as batalhas. As mais duras. Já me deu mais vezes? Não sabia de onde lhe vinha a aflição. E no meio do cansaço prometia. Eu vou arribar.
E arribava.
no teu colo
No teu colo o vazio. Onde estendo os meus braços. Na sementeira da
esperança. Que outra coisa não sei fazer. Digo-te que tudo vai correr
bem. E rezo como se fosse o remédio de todas as coisas.
Amanhã é o princípio de todos os dias. De todos os sonhos. Deixa que aqui guarde todas as tuas dores. Longe de ti.
As minhas mãos estão habituadas a semear. Aprenderão a rezar. E da sementeira virá a flor.
Amanhã é o princípio de todos os dias. De todos os sonhos. Deixa que aqui guarde todas as tuas dores. Longe de ti.
As minhas mãos estão habituadas a semear. Aprenderão a rezar. E da sementeira virá a flor.
o fim
espera-nos o fim.
numa data qualquer. até lá,
a viagem a acontecer nos dias. crochetados entre lágrimas
e risos.
lavor que incendeia os passos.
lavor que incendeia os passos.
um a um.
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