quarta-feira, 11 de maio de 2016

a terra

a terra tem esta maciez que a água tempera de perfume fresco. onde só me quero deitar. e abençoo os homens agarrados às foices lambuzadas de verde. fazem o pêlo raso na face da terra. absorvo o cheiro que me entorpece os sentidos. e me devolve aos tempos de toda a ingenuidade. sou menina e já me tinha esquecido. de algum dia o ter sido.
quando voltar à terra lembrar-me-ei de tudo.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

preciso

preciso de me acoitar neste silêncio. longe do inquieto burburinho que se move por entre as árvores. vento agreste a açoitar-me a pele. cansada.
afundam-se os rios que correm em desvarios nesta terra gretada de securas. antigas. sabem-lhe a sal as chuvas que agora lhe fazem cama.
lencóis com que me cubro.
https://youtu.be/Zm5pbLMn8j8

sexta-feira, 29 de abril de 2016

dançar

falar. assim na surdina dos gestos.
dizer quanto transborda na pequenez das palavras. inexistentes para quanto te quero dizer.
dançar como quem se despe. na limpidez de quanto diz um corpo nu.
a cru.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

dia a dia

  

dia a dia. no intervalo de todos os gestos. a caminho das palavras onde a secura arde.
de não te ter.

dia a dia, na ausência de lugares onde os meus olhos se demorem nos teus. água fresca. cascata incendiada

a pedir os teus lábios.

dia a dia, rebentas-me nas mãos. e floresces.
mesmo não estando.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

os teus olhos

por onde os teus olhos se quedam. no espanto. da vida colhida nos vales do meu corpo. rios que correm entre as margens que pedem as tuas mãos. terra que conhece o teu cheiro. como se flor fosses na alvorada da minha pele.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Se fosse árvore

Se fosse árvore não morreria nunca. Pelo menos no tempo das nossas memórias. De tanto durar. De tão forte ser.

É mulher e aquelas pernas já galgaram campos, aqueles braços muito peso levantaram.
Agora fica-se aqui. E ninguém a acode. O Manel Cardoso vem-lhe à boca nos momentos de aflição. E se demora prefere morrer. Nunca assim se viu. Quando ele chega pergunta-lhe onde está. Perdeu a memória dos lugares. E das perguntas que faz. Repetidamente.
Oh senhor, ajude-me. Não me deixe aqui sozinha. Ai que nunca fiz mal a ninguém...
Por aquelas mãos, agora impotentes, já se esventrou a terra. Já se matou a fome aos filhos. Agora não.

Se fosse árvore talvez bastasse dar-lhe água.
E não se ouviriam os gritos.

91 anos

Tem 91 anos. Uma mulher escorreita Olhos verdes. Vivos. Como a voz que fala das coisas como se fossem todas simples. Nunca casou. É o segredo dizem as enfermeiras. Uma arrisca mesmo dizer que assim sendo viverá até aos 100.
Ai menina se soubesse da minha vida!
A mãe morreu cedo. Deixou-lhe no colo 4 irmãos. Criou-os na altura. Cria agora os filhos dos filhos.
A voz forte a ressoar pelo quarto faz-se quase inaudível quando lhe pergunto de que morreu a mãe. Tão nova!
Sussurra, de cancro.
E fazemos silêncio.