O dia que espero, tarda. Antes chega tudo o que não quis. Mãos cheias de
amarguras. Tecidas pelas manhãs onde nascem todas as incertezas.
Paridas pela loucura dos homens. da voz faz-se o gesto e nos olhos o
espanto que o medo colhe.
Peço à terra que me ouça os gritos. Antes que a voz me desampare. Em nome de todos os que se apagam. Inocentemente.
quarta-feira, 27 de julho de 2016
domingo, 12 de junho de 2016
semente
de repente o meu filho estende-me uma agulha enfiada. sabe que os meus
olhos precisam de braços compridos para pôr linhas em buracos tão
pequenos. mãe, coze-me estes rasgões nas calças. e vejo buracos que
precisam de cuidadas cerziduras. como as antigas. a príncipio recuso.
depois enfeitiço-me pelo bordado. e teço as linhas que faltam
substituindo as puídas pelo uso. e páro no sossego que me leva aos
tempos em que ainda menina aprendia os primeiros pontos. como quem
aprende as primeiras letras.
desde menina andei pelos lavores. era assim que se formavam as meninas no nosso tempo. saía da primária e os tempos livres eram passados em casa de gente prendada nos bordados. em casa tinha outros ofícios. a alguns aprendi o jeito a outros tomei-lhe o gosto. ainda outros ficaram nas esquinas das memórias que para meu espanto acordam quando lhes retomo os caminhos. há quem diga que os genes têm baus ancorados com chaves que de vez em quando podemos abrir. eu tive essa sorte com o baú que minha mãe mesmo longe me deixou. uma mulher que fazia magia com as mãos. não lhe chego nem a um terço de altura! mas a semente tem aqui um lugar.
desde menina andei pelos lavores. era assim que se formavam as meninas no nosso tempo. saía da primária e os tempos livres eram passados em casa de gente prendada nos bordados. em casa tinha outros ofícios. a alguns aprendi o jeito a outros tomei-lhe o gosto. ainda outros ficaram nas esquinas das memórias que para meu espanto acordam quando lhes retomo os caminhos. há quem diga que os genes têm baus ancorados com chaves que de vez em quando podemos abrir. eu tive essa sorte com o baú que minha mãe mesmo longe me deixou. uma mulher que fazia magia com as mãos. não lhe chego nem a um terço de altura! mas a semente tem aqui um lugar.
vontade
o caminho faz-se de vontade. ainda que o horizonte mantenha a distância. ainda que o escuro sobre e a fome da luz nos acompanhe. sedentos. o
caminho dará a água que os lábios pedem.
haja vontade.
haja vontade.
esquecido
esquecido. de mim. pelos outros. sou nada. se nem nome tenho. já não
falam de mim os lábios onde a minha sede morou. secos estão os rios onde
me fiz raiz.
sou exilado desse país onde habitam as memórias. e feneço.
sou exilado desse país onde habitam as memórias. e feneço.
quarta-feira, 1 de junho de 2016
estas coisas
são estas as coisas que me fazem feliz. assim despidas de tudo o que as
atravanca. e no entanto cubro-me. e no entanto encho-me de desejos. e
anseio sempre outras coisas.
quando só estas. nuas e simples. me trazem toda a felicidade.
quando só estas. nuas e simples. me trazem toda a felicidade.
domingo, 15 de maio de 2016
o passado
como podia levantar os olhos nas estreias dos dias se o passado lhe adormecera, pesado, no ninho das pálpebras?
quarta-feira, 11 de maio de 2016
a terra
a terra tem esta maciez que a água tempera de perfume fresco. onde só me
quero deitar. e abençoo os homens agarrados às foices lambuzadas de
verde. fazem o pêlo raso na face da terra. absorvo o cheiro que me
entorpece os sentidos. e me devolve aos tempos de toda a ingenuidade.
sou menina e já me tinha esquecido. de algum dia o ter sido.
quando voltar à terra lembrar-me-ei de tudo.
quando voltar à terra lembrar-me-ei de tudo.
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