terça-feira, 26 de abril de 2011

De súbito, o amor




Enquanto as palavras se trocam e os olhares se cruzam os sorrisos são perfeitos e têm a pontualidade com que nascem os dias e adormecem as noites. Certos, seguros e prontos a emergir tirando lugar a discursos vãos e aliviando a correria sem destino de quem não sabe parar. Sabem, a tostas acabadas de barrar, molhadas no café bem quente a saciar fomes matinais.
Um dia deixam então as palavras de se beijar e sem pensar procuram os olhos outros em que antes se miraram. Sobram silêncios nos ecos dos risos e um vazio enorme onde tudo é pouco para o completar.
E neste menos de tanto, de súbito, o amor!

domingo, 24 de abril de 2011

Ainda


Ele chega sempre todas as manhãs. Entra sem licença pelas janelas abertas como se conhecesse já todos os caminhos. Lambe o silêncio de mansinho e aquece o frio que a noite deixou ficar. E nem assim tudo recomeça.

Ela continua à espera que dentro de si aquela escuridão se ausente. Numa viagem sem retorno. Tenta abrir os braços que lhe caem pesados. Com a luz ali tão perto. Bastava-lhe um abraço e todo aquele torpor desapareceria. Um abraço daquele sol que lhe promete uma vida a renascer.

Já passou o Inverno, outro. E ainda há chuva no seu olhar.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Escrevo-te estas três linhas

Já não tenho memória do tempo que passou. Sei que se foi amontoando entre nós de forma desorganizada. Pedaços deixados aqui e ali sem hora marcada e sem qualquer aviso deixaram-nos perdidos de nós em espaços que não conseguimos já vislumbrar.
De tempos a tempos, uma palavra, um gesto até mesmo um cheiro me fazem regressar a um sítio em penumbras que tento descobrir. Ausento-me do que faço e parto à procura do que deixei para trás. Como se precisasse de refazer rotas no mapa amarelecido que acabo de descobrir.
Faço então, notas. Curtas, sintéticas. Percorro passo a passo os caminhos doutros tempos.
Resumo em poucas linhas tanto que ficou para trás. Uma página apenas. Uma vida numa página.
Amarroto-a. Assim como as memórias que dela tenho. Prefiro-a assim a sabê-la tão pouca.

Terei do que vivemos o que mais importante for. O que nos gestos e nas palavras ficar. Agora sei porque não sou como era. Porque me fiz como sou. Porque serei outra ainda. É tudo quanto importa de quanto não me lembro.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Tantas vezes

Tantas vezes falamos por falar, dizemos por dizer. Somos autómatos, mesmo a sentir. Na pressa duma vida que afinal deixamos fugir, esquecemo-nos de nós na trivialidade das coisas ditas de cor. Assim sem as ouvirmos, sequer. Eu sei. Tu também. Agora que aqui estou, olha-me nos olhos e repete-me o que dentro de ti ecoa. Não deixes que só o suspeite ou adivinhe. Inscreve-mo ao ouvido. É para isso que existo. Para ouvir o que escondes nas pregas desse sorriso emprestado à pressa.
Espero por ti. Não me vou sem que desembrulhes o silêncio que cala tanto que tens para dizer.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Esta voz


Não te quero. Não quero ninguém.
E quero o mundo inteiro a toda a hora. E muito mais.

Não sou tua. Nem de outros. Nunca.

Sou desta fome que me assola e nada contenta.
Desta sede que me deixa tonta e nenhum rio satisfaz.

Tenho nas minhas mãos a vontade do longe e nos braços a força de o alcançar.
Nos meus olhos a esperança que o sorriso sustenta.

Só a morte calará esta voz que acalento.

Para que então descanse.

Pedras



não as carrego comigo. recuso-me. pouso-as tranquilas. estancam agora tanta coisa que só ali pertence. o resto está junto a mim. fluído. sedento. voraz!

Sinais



Sei dos sinais, pressinto-os, murmuram-me baixinho coisas que não quero suspeitar. desvio os olhos. finjo-me surda. caminho sem tactear na escuridão em que me acomodo. se me acordares, amor, que valha a pena.