terça-feira, 14 de agosto de 2012

um pano inacabado



nas tuas mãos, os pedaços que faltam tecer.

e o velho tear, a um canto, abandonado,
jura lembrar-se de todas os bordados que
fazem as travessias.

roçando a pele das manhãs
que te ferem os dedos descobertos
há um vento a assobiar-te os segredos
vindos dos dias que estão para chegar.

e um pano inacabado cobre-te os pés.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

as dores


as dores são rios
a
transbordar.

lancinantes derrocadas
em margens
apertadas, no sufoco
dum peito

a definhar.

e um deserto
calado
cresce frio na foz
de cada olhar.

domingo, 12 de agosto de 2012

até sempre


não, ninguém mais a conhece para além dos 6 filhos que o seu ventre alimentou e deu ao mundo e poucos que a amaram a seu modo por tantos sítios onde a vida a fez a mulher que fui conhecendo por intervalos. porque desígnios estranhos me negaram o tempo inteiro.
sei-lhe do nome, em louvores por ter ensinado as letras. de lugares onde punha as mãos, de bordar vestidos, na terra lavrada ou a levantar muros sem um queixume. e o pão na mesa, contado. mas a fome não se ouvia. se-lhe das histórias, da vida contada e do terço nas mãos e a reza em coro no silêncio da noite.
hoje, fazia anos, estaríamos todos à volta da mesa, duma mesa qualquer. e voltavam as histórias e os risos. (gostava de a ouvir rir) depois dir-nos-ia o que fazer com a cadeira e o banco, os lençois e as colheres, quando morresse. queria-nos bem.
era uma mulher forte e grande.capaz de amar, muito. e de perdoar também. tinha um orgulho enorme nos filhos. uma mulher com coração tão grande que não cabia dentro dela. por isso a levou muito cedo. por ser tão grande.
hoje cada um de nós almoçou em sua casa e não lhe cantámos os parabéns. mas agradecemos-lhe a vida que nos deu e ter feito parte de nós, pelo tempo que foi.
obrigada, mãe. gosto muito de ti, sabes? e no meu coração mais pequeno que o teu ainda estás e guardo-te,combinado?
até sempre.

não há solidão


não há solidão onde
não te faltam
os outros,
aqueles que ignoras ou
não sabes
de cor.

e no espaço em que lavras
os dias
há sementes a germinar
esquecimentos, onde
só tu floresces.

se te falta a memória do riso
a lágrima é o pão
que devoras
quando a fome te abraça
o peito.

e se porventura os sorrisos
te bordam os caminhos
tecidos
na brandura do tempo
encostas-lhe a pele
do teu corpo
e deixas-te acariciar.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

um banco


na minha aldeia, há paredes caiadas
nos tempos achados
em entremeios de terra lavrada
que descansam das mãos
feitas artistas em
murais de espanto,
na planície estendida na ombreira
dos meus olhos.
há portas, vestidas de céu
de que me tapo no aconchego
do tempo
que ora, ferve, ora treme.
janelas de molduras cor de mar,
cais de viagens
sem fim.

e em cada canto, um banco
onde todos os regressos
saciam os cansaços

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

não há poesia


não há poesia na noite que chega. na casa que espera o fim dos dias. no cansaço sem prazos que sobra no corpo. nem nos sonhos que negam presença em sonos ausentes.
em sorrisos que morrem na fonte dos lábios crescem amarguras onde o asfalto dos dias se estende. no vinco árido dum tempo que não se compadece de esperas. e se afunda no rosto que os meus olhos perdem.

fogem as paisagens que falam poesia pelas minhas mãos. e sei que em lugares distantes dos que sou, existem.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

a ti.



de repente, um seco restolhar avivou a memória do verde que ainda agora era sombra neste chão onde acordas os ruídos dum tempo que sempre volta. e conformas-te nessa viagem sem retorno, já de braços caídos. onde os bolsos carregados de coisas inúteis já não contêm as mãos suadas, de tremores ambulantes na ânsia de tanto prever. medos que vêm de longe. onde as angústias se perderam em ninhos arrancados por ventos ou pilhados por apetites vorazes de quem não gosta de voos para além dos seus. de asa curta. e balbucias entre os poucos silêncios que a cabeça te permite a força que inventas, vinda não sabes de onde. suspeitam-te loucura nesses teus olhos abertos de espanto e raiados a vermelho. não sabem que dentro de ti crescem vontades que não domas e pernas que te levam onde ninguém chega. porque não lhes cortas a vontade. e quase morres. vivendo.