sexta-feira, 12 de outubro de 2012

o meu querer


o meu querer tem a pressa que não cabe em barrigas a germinar.  sobram-lhe ânsias nas pernas de alturas que me olham para baixo. e corre para onde não estou e já sou a toda a hora.
os minutos contam horas na loucura de chegar onde acontecer se faz tarde. este querer que me abraça, se não se cumpre, sufoca o peito de onde crescem braços gigantes a pedir de outros, cais.
urgências discorrem nas madrugadas onde este querer desperta. sem regras e despidos de margens é para lá do que tudo alcança, o pé descalço desconhece a dor e só sabe andar. na força deste meu querer.
não há mansidão onde ele habita. é feito de ousadia e sem medo, investe quando a vontade lhe nasce.

e não, de arrependimento, não morre, este querer que há em mim. antes, cresce e mais de mim se torna. porque quero.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

talvez


talvez
eu me devesse acrescentar
ao que já foi
e não ser agora a vez primeira
das ancestrais manhãs.

talvez,
abrir os olhos das auroras ,
que parecendo iguais,
trazem a estrear surpresas
que se abrem no presente
de mãos arregaladas,
onde mergulharam todas as histórias
a transbordar.
ser ao mesmo tempo,
o tempo todo.
mesmo que ainda a germinar.

talvez
devesse ter a altura
que as pernas me dão
e, cá de cima, falar alto,
as coisas que a voz guarda
no meu peito
porque ainda não aprenderam a voar.

e esquecer que me apetece,
debulhar a carícia do sorriso que não sei.
enroscar na nuvem que sabe a algodão doce
em dias estranhos.
ou mesmo até,
esquecer , por um dia só,
que na minha cabeça há um mar revolto,
onde, ondas crescem
em desvario,
quando do céu, cai a água que lhe apetece.
esquecer de rir no colo das manhãs,
de fazer do bocejo, o espanto
e de me  perder em todas
as esquinas, onde a luz se faz, do brilho
dos meus olhos.

talvez...

mas, onde iria o que faltava
de mim?

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

a vontade


a vontade é uma toalha
estendida na mesa onde se põem
os dias.

de olhos remelados pelas névoas da noite
onde o sonho se encostou.
bebe-se o café requentado
dos sabores que a memória tece,
vertem-se as lágrimas e os risos
com o punho aceso da teimosia
enrolada em asas
que não servem para voar.
limpa-se-lhes a boca
onde o espaço minga.
abafa-se o grito de tanto
no torcido pano.

e suja-se,
lambe-se,
remói-se na esfrega
à espera do viço
de quando se nasce.
perde-se a conta às mãos que a bordam
na cura das feridas abertas,

assim. esgaçada ,
rebentam-lhe a força que tem
e desmaia o rubor onde a grandeza
se perde.

sobram agora mesas despidas
onde a vontade se perdeu,
derrotada.
para dormir
em companhia das irmãs
a quem chamaram
fé e esperança.

contam que o medo
é o prato frio
servido sem cerimónia.
em todas as alvoradas.

sábado, 6 de outubro de 2012

é hora de partir


dias e dias, contados,
a somarem-se onde não me vês
mais.

meu corpo,
cansado, de pedir o teu
nesse gesto mudo,
perdido entre nós.

corre
um rio sedento
das águas que nascem,
paridas de ausências
semeadas.

apagou-se já
a luz
no farol dos teus olhos
e não pousam mais gaivotas
neste cais.

é hora de partir.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

de pé,viver.




caminha-se de pés doridos
e cabeça rente ao chão

desde o sono desfeito
até ao fechar das pestanas

pesadas

do sonho espezinhado,
teimoso em acordar
na noite que o peito
alberga
longe de quem o queira

roubar.

sobra a fé
na mão piedosa
de um deus qualquer

pede-se, de joelhos
em terra,
ser-se gente
inteira

e de pé, viver.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

o nó cego

(foto tirada da net)

engoliu em seco
o dia.


 na chávena fria
o sabor azedo
das palavras
que nunca
disse.

nas pálpebras,
o peso da noite
que teima
em gritar.

 na camisa engomada,
o nó cego,
a ver-se nos olhos
da vida

que já não tem.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

barco serei





barco serei
nesse rio que desce 
pelas cordilheiras, tecidas 
no teu rosto. 
descerei
à doca onde teus lábios 
me esperam, 
levar-te-ei o voo das gaivotas 
que vi nascer nos teus 
olhos.

dirás 
que os meus cabelos 
têm o cheiro do sal,
quando tos pousar 
no peito. 

saberás
que estas ondas
ode teus dedos, afundas
são filhas do (a)mar.

e uma alma marinheira
não faz senão 
navegar