segunda-feira, 19 de setembro de 2016

quero-te aqui



Quero-te aqui. Neste lugar onde todos os outros nascem. Rente à pele que me veste. A caminho do que os olhos alcançam. Mesmo fechados. Porque é pelos teus gestos que me guio.

sabes



Sabes as ruas de cor. Tantas as vezes que lhes puseste os pés. E perdes- te agora. As ruas mudaram os cheiros. Falta-lhes o viço das cores. E onde os teus passos ecoavam ouve-se o silêncio. Se te falta o amanhã, perdes- te no passado. Onde agora moras. E no entanto sabes as ruas de cor.

a vida

A vida despeja- se num ai. Como tudo se resumisse ao ar que bebemos. Nada mais. O que somos nós entre as golfadas ausenta- se. Noutro que vem na sede do que o faz viver. Mesmo que um corpo nada diga, neste silêncio da partida, são as palavras que buscamos. E as mãos que não mexem mais. Precipícios que os dias desenham. No alvor da morte.


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

alegria

há uma alegria desenhada nos gestos largos. onde sorriem todas as palavras que cabem no contentamento. como se fizessem abraços. antecipados no colo. a semear dias num corpo prenhe de futuro. é desta alegria que se constroem os sonhos. a que chamamos esperança.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

a equilibrista

Ninguém diria ao ver-lhe o redondo da cara e a figura roliça, que fora equilibrista. Num circo grande de há muitos anos. Desde que se conhecia até ao dia em que cruzou os olhos com o rapaz das farturas. Ele lá queria vê-la debulhado pelos olhos alheios! Conta que já tem dois filhos e a saudade daquela vida linda. Acrescenta. E das palmas, que agora só quando morrer. Dos artistas despedimo-nos com palmas! E o sorriso vagueia no tempo que agora não quer para os filhos.

esperança

pinto a esperança com a cor dos teus olhos.

mergulho as mãos, cheias do vazio que me alimenta a febre, no sal com que me temperas os lábios. há um mar a soletrar-me as palavras. que procura pouso nos teus ouvidos.
mas tu amanheces onde eu anoiteço.

somos a lonjura.

pinto a esperança com a cor dos teus olhos.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

o dia que espero

O dia que espero, tarda. Antes chega tudo o que não quis. Mãos cheias de amarguras. Tecidas pelas manhãs onde nascem todas as incertezas. Paridas pela loucura dos homens. da voz faz-se o gesto e nos olhos o espanto que o medo colhe.
Peço à terra que me ouça os gritos. Antes que a voz me desampare. Em nome de todos os que se apagam. Inocentemente.