quinta-feira, 23 de outubro de 2014

esperança

porque o verde tem nome de espera(nça). o tempo de crescer, promessa em botão seja onde for. pequenas que sejam as coisas. até nós, ainda. no querer. e o tempo que atravessamos até crescer se encha de todas as primaveras. mesmo que tardias ou precipitadas. ou até outras que não havíamos pedido. que sejam verdes, os anos, na inocência de ainda acreditar!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

de nada valho


agora nada valho. tudo custo a quem dou sustento. e parcos são estes bolsos. que mãos doridas cozem no alinhavo dos dias.
e é a brandura que me aquece o peito, (falte o sol nas manhãs, cisque o vento nas janelas,) que te alumia os olhos, ainda.
do pouco que de mim fazem sei que te sou muito quando me pedes encosto. na friura das noites. ainda que altas vozes entoem o verão lá fora, é em mim que acendes a primavera. e te fazes rapaz. outra vez.
quando eu me for. quero silêncio. porque as palavras, essas sim, digo-te eu, de nada valem.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

a dor

no segredo da pele. a dor.
a voz apertada. dum qualquer mal.
a mordida do cão.

ao longe a carícia emprestada
ainda presente na memória dos
gestos
petrificados.

no segredo da pele. a lágrima.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

a vénia

talvez já nada se invente. talvez tudo esteja já criado. talvez saibamos já tudo quanto há para saber. e descuidados que somos, desbaratamos quanto temos. a pensar em muito mais no fraco alcance dos curtos braços paridos.
e há quem do que fazemos aproveite os gestos. hábilmente. com o lacónico sorriso. na tontura do que somos. ainda. porque não crescemos ainda que tenhamos no corpo o tempo e na pele as marcas. e estremeça no riso. com vontade. porque somos assim. ainda veneradores de deuses. sejam eles quais forem. mesmo que no bolso tilinte o vazio.
haja o brilho aceso no olhar e a vénia faz-se.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

descontentamento

às vezes canso-me de adiar o descontentamento. essa palavra que se estende gordurosa na distância que os meus dedos espantados quase negam conhecer. sabem-lhe futuros que o passado lhes coseu nas linhas que me cruzam as palmas das mãos. estas que tantas vezes ampararam rios no lugar onde só o sol pode brilhar.
que da noite sobra ao que ao dia falta. e a luz nasce sempre num sorriso. tantas vezes mirrado.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

as tuas manhãs

as tuas manhãs escrevem-se nos meus olhos.

e as minhas mãos, vazias, olham a nudez que lhes desampara os gestos.
na pele, o murmúrio aceso de te lembrar. e a pedir-te que não me deixes sem que te diga o que guardo a cada instante. de ti.

(pode um dia acontecer, acordar e faltar-me luz. essa que soma os passos com que te alcanço.)

e as minhas mãos, vazias, olham a nudez que lhes desampara os gestos.
aħ, fosse agora manhã, meu amor, e calaríamos todas as noites. no berço das minhas mãos.


ainda

ainda há dias assim. de páginas claras e transparentes.onde o futuro se escreve com os nossos corpos.
que doutra forma seja o imperfeito ausente do que somos. num tempo que a distância não alcance. nunca.