sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O retrato


Uma cadeira vazia. Penosamente vazia. E uma réstia de luz como um caminho.
Uma poeira brilhante dança no ar. Cheira a tempos antigos.
Afasto as teias que bordaram cortinas em portas que já ninguém abre. Restos de memórias penduradas miram-me de esguelha.
Sinto as tábuas ranger sob os meus pés. Acautelo-me.

Uma arca a um canto, uma manta abandonada e, de repente, sinto-me intrusa.
Encosto-me a uma parede e deixo-me cair devagarinho. De onde estou ninguém me poderá ver. Uma janela aberta à minha frente deixa entrar a luz e alguns sons. Deixo-me ficar.

Vejo-te então. Lembro-me quando eras assim. Deixo que tudo aconteça de novo outra vez. Afinal vim mesmo para te visitar. Nesse dia tínhamos feito uma longa caminhada. Tinhas-me mostrado os teus lugares secretos, aqueles sítios a que ninguém dava importância e que por isso estavam ainda tão bem resguardados. Fotografei tanta coisa! Não parámos de rir e de falar. Foste o meu modelo e eu o teu. Foi quando te fiz essa fotografia que agora encontro aqui.

Apanho-a. Limpo-a. Perdeu a cor.

Foste-te daqui há muito. Levaste tudo. Levaram tudo. Ficaram as memórias que tenho de ti.

Vou agora também. Deixo-te na cadeira que tantas vezes te aliviou o cansaço.
Para que não fique vazia, nunca mais.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Tenho um barco


Tenho em meu peito, ancorado, um barco.
Há muito tempo parado.
Águas calmas e serenas, fazem-no balancear suavemente. Sei-o ali. Pronto a viajar.
E no entanto, deixo-me ficar. Vejo chegar, quem chega e partir, quem parte.
Não tenho sede, ainda, de me fazer aos ventos.
Ouço-lhe as melodias, conheço-lhe as falas. E sei ainda dos bailados que em coreografias imprevistas, ensaia nos passos da vida.

Um dia, levantarei a ancora. Não precisarei de remos. Meu coração ditará o rumo e do meu peito em direcção ao teu, viajarei.

E o barco? Voltará ao ancoradouro que no meu peito construí. Para todas as viagens que ainda tenho de fazer. Para todas as partidas e regressos que o meu coração marinheiro ainda souber fazer.

Nem que seja para sair de mim.

Ontem


ontem, deitaste-te a meu lado.
deixei que o fizesses. abri-te mesmo o espaço que guardo nas tuas ausências.
aconchegaste-te de mansinho.
há quanto tempo não voltavas?

que tudo estava diferente e mesmo assim familiar. vagueaste, percorrendo-me como se me procurassesde novo.
deixaste que a luz que entrava no quarto me iluminasse o rosto. de joelhos, a meu lado, olhaste-me longamente.
brilhavam duas estrelas  no teu rosto que recordo, igual. nem mais uma ruga, nem mais brancas.
aparo-te uma estrela e atrevo-me a guardá-la. sinto-te a barba por desfazer.

levantaste-te e foste-te embora. não sem antes me dizeres que gostavas das mudanças em casa.
da janela, vi-te partir. na minha cama nem vestígios da tua presença. só no meu olhar o brilho da estrela que de ti guardei.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O rio da tua terra


Falaste-me do rio da tua terra e abri em meu regaço um leito para o deitares. Senti-te a fome de o abraçares e deixei-te fazê-lo. Esqueci-me das margens que o teu rio selvagem sempre galga para ir mais longe e assim me fugiu. E tu com ele. Na ânsia de mar.

Fosse hoje ainda, tivesse sido ainda antes e meu regaço teria sido o poiso do teu rio mesmo que por breves instantes.
Ainda sem margens. Quem sabe, um dia... a foz!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Gosto-te


Gosto-te.

E soletra devagarinho, pausadamente, cada silaba como se a mastigasse pedaço a pedaço, saboreando-a para melhor a guardar na memória dos paladares que ainda agora ensaiara.
Ouvira-lhe a expressão, aqui, pela primeira vez. Assim, do nada. Como um beijo ou uma carícia. Um gesto, só. Um sinal que lhe permitira entrar no seu mundo.

Gosto dos búzios que me deixam ouvir os segredos do mar, da areia que me deixa seguir as tuas pegadas, do mar que me deixa sonhar viagens, das gaivotas que me fazem querer voar... de caminhar a teu lado em silêncio, das gargalhadas que soltas quando uma onda te apanha de surpresa.

Gosto-te.

Agora no ecrã do telemóvel, encurtando a distância, reaviva-se o sabor do sal e o cheiro a mar. Ecoa a sua voz. Pousa-o suavemente onde tantas vezes se sentaram a olhar o cair do dia lá onde o mar toca os limites do céu. Escreve, letra a letra, a mensagem que lhe devolve. Na areia. É a água do mar que tantas vezes os testemunhou que a pouco e pouco a virá, lambendo, levar para junto dele. Sabe.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O tempo da ausência


Há muito que deixara de contar o tempo e quando ele lhe disse agora com tal precisão há quanto tempo deixara de a ver, estremeceu. 3 meses, dez dias e 18 horas.

Tinha tudo corrido mal. Um dia cheio de desencontros. Como se nada tivesse que acontecer, nem aquele dia. Como se tudo fosse um rascunho pronto a ser amarrotado e posto no caixote do lixo ou queimado e se tivesse de recomeçar de novo. Alguém, nalgum sítio deveria estar a tentar rebobinar a vida de quantos naquelas horas tentaram acertar passos e palavras, porque na cabeça de todos o dia não passava dum argumento mal escrito, interpretado por actores mal ensaiados, com falas desalinhadas, saídas de filmes dobrados por actores suspeitos.
Ela só queria acordar do pesadelo que se tornara o dia. Convencera-se que dormia ainda e quando acordasse, a vida estaria no sítio de sempre. Alinhada, como as árvores da alameda da estação.

Lembrava-se das folhas, da cor, que cobriam o chão. A única recordação que naquele dia lhe trouxe um pouco de paz. Sempre gostara do Outono. Da cadência na queda das folhas, da despedida dos dias longos de Verão e das férias e muita gente num vai e vem que a confundia.

E de ele partir.

Já nem sabia muito bem como tal acontecera. Tinha tudo guardado para lhe dizer. Tempo para estar com ele. Finalmente ia poder fazê-lo e resolver tantas coisas que andavam a adiar... Aquele maldito telefonema pela manhã, a reunião de ultima hora, o furo mesmo em cima da hora marcada, o cansaço das desculpas, amo-te, gritado ao telefone. Não acredito em ti. Vou-me embora. Não vás. Acabou-se.

E de ele partir.

Era laranja forte a folha que apanhou naquele dia, faz hoje, 3 meses, dez dias e 18 horas, acabou ele agora de lhe dizer. Desceram duas gotas dos seus olhos que ele beijou. Amo-te. Sei!
Espera.
Da mala tira um bloco que abre. Entre as páginas uma folha já seca e descolorida. O tempo da tua ausência. Diz-lhe. Ele amarrota-a, deita-a fora.

Não há ausências. Estou aqui!

domingo, 21 de novembro de 2010

Enquanto houver memória


Estava a ouvir a mesma música de sempre. Repetia-a vezes sem conta e não se cansava. Servia-lhe como um vestido que já lhe tomara as formas e acomodava-se a todos os cantos dos seus sentidos, milimétricamente, suavemente. Lá fora, fizesse o tempo que fizesse , acontecesse o que acontecesse, nada a perturbava. Aconchegava-se e deixava-se levar, porque era preciso. Sabia disso. Era o seu espaço de evasão e conforto.

(No carro, em frente ao mar. Lugar e espaço comum.
Fila interminável de gente assim encaixotada, de olhos fixos no mar ao som duma música qualquer.)

E o mundo sempre a acontecer. Quando a noite caía ficavam os reflexos a brilhar presos em rastos de milhares de gotas que a pouca chuva, dum Outono envergonhado, deixava no asfalto. Era tempo de voltar a casa. E ao som da mesma música, ainda a mesma música, pensar no dia seguinte.
Desenrolar o casulo devagarinho, encolher as asas, respirar fundo e lembrar cada instante. Ter a certeza de que é sempre possível voltar. Enquanto houver memória!