Bastou um gesto simples.
Uma palavra antiga. E fechou-se tudo ali.
Podia ter sido noutro
local qualquer. Podia.
Doutra maneira,
também.
Mas não era importante.
Um dia as memórias
conservariam todos os detalhes,
acrescentariam alguns,
fariam a sua obrigação.
(Agora resta um ligeiro alívio apesar da dor de cabeça que persegue estas decisões.)
Um adeus anunciado a cada instante.
(Fora o que fora.)
Dizem que quando não se fala....
E quando sempre se sente?
Este gesto de mão
sempre a bater à porta
das emoções.
Este acenar inquieto
a que baixamos os olhos
por querermos ainda
mais.
É a dizê-lo,
a fazê-lo
e de costas voltadas avançar
que se cala o que tanto
se adiou.
Um gesto simples
e a palavra mais dolorosa que conheço.
sábado, 7 de maio de 2011
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Coisas inúteis
E vieste com o teu sorriso aberto. De repente estava dentro dele. Sorrindo também. De mãos dadas.
Não houve promessas. Nem troca de flores. ( Não tinham nascido ainda, lembras-te?). Voámos. Isso sim. Voámos muito. Para longe de nós. De cada um de nós. Por breves momentos despimo-nos da vida que carregávamos e, leves voámos. Felizes.
Regressámos ao que somos, depois. Ao que somos, agora. Recordo a tua mão, os dedos estendidos um vago aroma que não identifico e um sorriso de que perdi a chave.
Alimento a esperança dum novo encontro. Coisas inúteis.
domingo, 1 de maio de 2011
Um adeus
Deixar-se ir ao correr dos minutos sem os contar. Embarcar no tempo esquecida de tomar conta de quanto nele há. Vadiar, vagueando sem rumo. Perder-se mesmo. Despedir-se das memórias, um fardo que a sufoca e amarra na voz que a custo sai arranhada, entrecortada pelo sal das lágrimas, pesadas e teimosas. Para sempre. Lúcidamente, adeus.
Ainda o sorriso, o olhar, as palavras. Sobretudo as palavras e aquele olhar quase perdido. A encontrar-se no dela. Perfeito. O encontro da pele, o cheiro, o sabor, alquimia, vertigem em rodopio. Agora, também e para sempre num arrepio. Evidente.
Ausentar-se é quanto pode fazer. Abandonar quanto ficou perdido naquele tempo. Noutros tempos outras memórias virão. E em lugar de lágrimas crescerão sorrisos.
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Realidade?
Endoidecemos todos um pouco na tentativa surda dalguma lucidez. Atam-nos já a camisa de que não vimos botões nem reconhecemos a frente por nos virar as costas e de braços tolhidos esbracejamos mentalmente. Não cabem já na cabeça tantos movimentos que não são mais que convulsões. É um estado febril a corroer-nos. Acho que deliro. Prefiro que seja assim. Depois quando voltar ao que era tudo estará como sempre pensei que seria acertado. Sócrates? Era só um personagem dos meus loucos devaneios num país que afinal nunca existiu.
terça-feira, 26 de abril de 2011
De súbito, o amor
Enquanto as palavras se trocam e os olhares se cruzam os sorrisos são perfeitos e têm a pontualidade com que nascem os dias e adormecem as noites. Certos, seguros e prontos a emergir tirando lugar a discursos vãos e aliviando a correria sem destino de quem não sabe parar. Sabem, a tostas acabadas de barrar, molhadas no café bem quente a saciar fomes matinais.
Um dia deixam então as palavras de se beijar e sem pensar procuram os olhos outros em que antes se miraram. Sobram silêncios nos ecos dos risos e um vazio enorme onde tudo é pouco para o completar.
E neste menos de tanto, de súbito, o amor!
domingo, 24 de abril de 2011
Ainda
Ele chega sempre todas as manhãs. Entra sem licença pelas janelas abertas como se conhecesse já todos os caminhos. Lambe o silêncio de mansinho e aquece o frio que a noite deixou ficar. E nem assim tudo recomeça.
Ela continua à espera que dentro de si aquela escuridão se ausente. Numa viagem sem retorno. Tenta abrir os braços que lhe caem pesados. Com a luz ali tão perto. Bastava-lhe um abraço e todo aquele torpor desapareceria. Um abraço daquele sol que lhe promete uma vida a renascer.
Já passou o Inverno, outro. E ainda há chuva no seu olhar.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Escrevo-te estas três linhas
Já não tenho memória do tempo que passou. Sei que se foi amontoando entre nós de forma desorganizada. Pedaços deixados aqui e ali sem hora marcada e sem qualquer aviso deixaram-nos perdidos de nós em espaços que não conseguimos já vislumbrar.
De tempos a tempos, uma palavra, um gesto até mesmo um cheiro me fazem regressar a um sítio em penumbras que tento descobrir. Ausento-me do que faço e parto à procura do que deixei para trás. Como se precisasse de refazer rotas no mapa amarelecido que acabo de descobrir.
Faço então, notas. Curtas, sintéticas. Percorro passo a passo os caminhos doutros tempos.
Resumo em poucas linhas tanto que ficou para trás. Uma página apenas. Uma vida numa página.
Amarroto-a. Assim como as memórias que dela tenho. Prefiro-a assim a sabê-la tão pouca.
Terei do que vivemos o que mais importante for. O que nos gestos e nas palavras ficar. Agora sei porque não sou como era. Porque me fiz como sou. Porque serei outra ainda. É tudo quanto importa de quanto não me lembro.
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