terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

cobriu-a de luto

leva nas horas
contado
um cortar de pulsos onde
o sangue
estremece transparente.

desfalece
em sorrisos
que correm em fios que ninguém
vê.

pérolas que lhe adornam o peito onde lhe assentam
as esperas.

a navalha dos dias afia-se
na esquina das noites
empoleiradas em olhos
abertos.

só a lua que lhe descansa nos ombros,
sabe
dos rios prometidos.
e há muito que dela se
foram.

cobriu-a de luto
a noite.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

nasceu curvado


nasceu curvado. na boca um grito travado. o dia não era de revolta. nem de nascer. era de atrasos feitos. coisas adiadas. a preguiça tinha hora marcada. e era pontual. nada mais o era. a injustiça não precisava de hora. gostava de surpresas. e de rasteiras.
parece que nunca se endireitou. de nascer torto. e à fala nunca chegou. e nem foi pela injustiça ou pela chegada prima que lhe rimava as ultimas sílabas. um descalabro da natureza fê-lo mudo. e tudo ouvia. morreu inchado de tanto saber e nada poder gritar numa humana voz.

coisas de blue mondays!

sábado, 11 de fevereiro de 2012

no principio


no principio convocaram-se todas as manhãs.
plantou-se-lhes nos
olhos
a estrela mais brilhante
para que iluminasse os estremunhados
sonhos
das noites

de todas as vésperas.

e todas se levantaram.

muitos, cansados
acabaram na noite presos.
olhos fechados em chão
quebrado.

ainda assim cresce a estrela nos olhos
das manhãs
convocadas.

as minhas raízes


as minhas raízes não agarram terra. as minhas raízes não o são. são boca apenas. a matar fome e a sumir sedes onde pernoito e teço sonhos que nos dias estendo para me guiar.

sou flor aberta na mãos da madrugada, no colo desta terra embalada. nas carícias do teu beijo transpareço as palavras que me segreda o ventre que me pariu.

voam em ti as raízes que te planto no olhar.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

nego



nego meus braços pendidos, a roçar o chão. meus olhos não calam o que a boca não diz e rego este espelho a mirar-me de raiva. crescem rios sem margens onde afundo meus pés.
na raiz de ser gente e na força que sonha quem ainda não apagou as memórias antigas, há gestos que sobem e são da altura do tempo de agir.
faço dos braços a coragem e desta voz a palavra. neste mar de tempestades sou a onda da revolta. ninguém cala esta bravura que carrego no meu peito.
filha da dor, em almas rasgadas por mãos que roubaram o que resgato, inteiro.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

esperar

esboroa-se a lombada esquecida das horas
deitadas
em todas as esperas.
condenada
ao desespero de todas as memórias.
enterrada
em lugares anónimos,

coberta da pele dos tempos,
roupagem duma vida
que a faz antiga.

(os amantes mudam a crosta das feridas deixando-a aberta. lateja então no ar um coração dorido a respirar um dia novo.)
há no sal da lágrima e na língua que a beija, a voz
da esperança
a nascer.

não faltem pois, lágrimas nem beijos na sementeira!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

leitos de silêncios


e
deitam-se entre nós as
palavras
em leitos de silêncios.

descansam
a voz
na lisura que os teus
olhos plantam nos meus,
de espanto.

tudo se torna claro.

nesta ausência
de língua
que veste
os gestos.

traço nos teus lábios
a flor
que acorda o meu
peito
em pétalas de seda.

sabem-me a quanto de mim
tens
guardado.

resgato-me
agora.
para de novo ser

palavra
em ti.