quinta-feira, 13 de setembro de 2012
não me apetece falar de amor
não me apetece falar de amor
nas horas apertadas
da fome que me entorpecem
os gestos.
na fúria que me cresce
em vazios semeados
por vozes que ditam tempos
de terras ao abandono
de quem as queira
roubar.
vai-se embora desta terra
o sangue que lhe corre nas veias.
desfalece nos meus braços
a esperança
da semente que noutros
lugares, faz plantio.
morre este povo,
em pedaços, retalhado.
a cada hora abatido
de ser gente, ser inteiro.
na casa onde nasceu.
não me apetece falar de amor
e tanto amo, esta terra!
sábado, 8 de setembro de 2012
a hora da liberdade
moro num país arredado
dos meus sonhos.
longe da minha vida, exilada
nas mãos dos que me sugam
as forças,
mas não me calam a voz.
cresce nestas entranhas,
onde falta o pão,
o grito aceso, da palavra
atenta
à hora que chega
em sangue vivo
para redimir esta liberdade
açaimada.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
o teu sorriso
o teu rosto sorria-me no lado onde
faltavas.
ali, na minha frente.
e eu, respondi-te no mesmo jeito
como se não houvera intervalos
entre os teus olhos
e os meus.
não me vieram aos lábios
as palavras com que adornavas
os tempos de silêncios
que nos despiam em desconcertos.
essas, não.
nem as outras, nem outras quaisquer.
foi o teu sorriso brando e o verde claro
desse olhar
que me abriu, mansa
esta ternura de te deixar aqui voltar.
domingo, 2 de setembro de 2012
o fumo
de costas para o mar, o fumo
dizia-me que o fogo ardia
por ali.
e o meu céu cobria-se de luto.
lágrimas de cinza vestem
a pele desta serra que me beija
os olhos.
como se fosse noite
como se noite fosse, apagar o fogo
que no céu faz dia
porque em terra se acende
o lume a queimar o pão que à boca falta.
é a aflição e a gente que mata pela água
a sede a este ladrão que nos rouba
a vida.
sumam-se os cansaços que a hora é
de vencer o demo.
sábado, 1 de setembro de 2012
ali
ainda não acendeu
as luzes, na casa
onde, de cor, os seus passos
lhe invadem os espaços.
suspeita encontrá-lo
onde os seus olhos se lembram
e recusa-se.
ali,
de cortinados corridos,
mora uma mulher
de olhos fechados.
dentro deles, um cemitério de rios
de onde as chuvas
emigraram.
palavras escorreitas
digo-te palavras escorreitas,
mesmo se em tortuosas
linhas, escreves as que guardas,
do que sou.
sou de água feita, da
nascente das nuvens
que te enchem
os olhos
quando não me tens.
corre-te nos lábios, a palavra
virgem, com sabor a sal
que colheste em mim.
sei-a quando no meu corpo
se faz voz.
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