sábado, 16 de março de 2013

as palavras


fe li na men te reclinou-se e nada disse. afinal todas as palavras estavam já ditas. não havia boca, agora, calada que não as tivesse pensado. e tivesse nelas banhado a língua. nesse lago parado a olhar um céu pasmado no silêncio bafiento das coisas mortas.

mas,
há sempre um terceiro dia, uma terceira vez, um número mágico, que seja o três.

e na secura desamarrada de tanto ter e nada dizer, solta-se o eco da voz que a palavra fala. e faz-se o verbo na boca das mãos.

as palavras, são para se fazerem.

sexta-feira, 15 de março de 2013

não basta


não basta o céu ser azul nem o sol barrar-te o corpo do calor que te faltava no frio que te vestiu neste tempo bravio que te encheu as memórias e te fez perder no longe de dias assim. não basta o riso dos miúdos nas praças, onde as folhas mortas encontraram abrigo e agora voam nas asas improváveis de aviões soprados no alento de braços pequenos. não basta acordar a esta luz que te desabotoa os olhos pregados na fúria dos ventos que daqui te levaram. agora já não pertences onde estás. e tudo começa de novo.

quarta-feira, 13 de março de 2013

hoje é o tempo

ontem, ficava atrás das costas, num sítio de monstros e de medos com o cheiro das coisas por descobrir. e pela frente o mistério que os grandes guardavam nos braços enormes e no colo onde as feridas todas eram saradas no mel dos beijos. e cozinhávamos aventuras no pólen dos dias que floriram tarde na vontade de guerrear. hoje é o tempo de espalhar a primavera que borda as nossas mãos!

segunda-feira, 11 de março de 2013

chega-te aqui


 chega-te aqui. medra-te o medo com a fome e com nada contas para além do que te tiram. doem-te os gestos que te sabiam a casa. têem o gosto imprevisto dum preço que já não podes pagar. daquelas mãos por onde pendiam ternuras, descem cansaços que te moem a pele e alagam os olhos em maresias inúteis.
chega-te aqui. e já nem sabes para quê. tocar-lhe é sentir a morte e tu ainda não sabes despedir-te.

quarta-feira, 6 de março de 2013

há nos silêncios


há nos silêncios, campos em pousio onde as sementeiras se adiam no preparo da terra fecunda. barrigas prenhes onde as palavras crescem e a qualquer hora, se fazem  o fruto da espera. umas tardias, outras no cedo precipitadas e as que morrem caladas.

espreito no bulício das tardes, o desepero das vozes cansadas de se ouvirem. e de nada dizerem. já que nada para além delas nasce.

terça-feira, 5 de março de 2013

da minha mãe


amanhã? amanhã é uma palavra que dorme na barriga que se pendura nos olhos mais tristes da minha mãe. o sítio onde procurava as estrelas no frio da noite e agora a vejo afundar-se. na água morna, mas salgada como o mar. de meter medo. e as canções que ouço, embalam monstros que saíram dos sonhos para se aninharem por aí. é preciso apanhá-los para me ver no riso esquecido. da minha mãe.

um dia


um dia, haverá razões para, de pé, gritar o amor que dança neste coração pequeno. onde os olhos desapertam as manhãs envergonhadas do presente rasgado de todas as alegrias prometidas