R tem um olhar meigo. como se abraçasse e ao
mesmo tempo envergonhado a fugir de se mostrar. e procuro-lho de lho
querer. porque me sinto bem nele. abraçada. na meiguice do olhar. não
podia ser meu pai, apesar de ser mais velho. embora fosse bom ter um pai assim.
assim como é tê-lo como amigo. aqui no pertinho das mãos.
conta-me todos os confortos que me faltam. não sei como os sabe. talvez
mos espreite na voz. e tece-me as histórias que arrecadou vida inteira.
e tem muita vida. sei que a tem pela cor dos cabelos. ondulados, cor da
neve que lhe cobrem a cabeça. farta de ondas. ainda.
sabes que
numa relação há sempre três intervenientes, diz. o homem, a mulher e a relação que os une. e colhe-me o espanto
sem surpresas. suspeito que gosta dos meus espantos. acho até que é
nisso que se maravilha. nesta minha transparente vontade de apender e
nada saber. espero que me diga toda as palavras que enchem esta história
já a fazer sementeira no plantio da minha sede.
um homem e uma
mulher juntos podem amar-se. muito.e decidirem ter uma relação. e não
cuidarem dela. não haverá amor que resista. nem relação que permaneça.
olhámo-nos. até que as minhas interrogações deixassem de o ser.
acontecia-me perceber devagarinho aquelas divagações. assim como os
primeiros passos de dança. primeiro atropelados e depois como se
fizessem parte de mim e R dizia, parece que voas e eu achava apenas que
eram os braços dele à volta da minha cintura que me davam asas. como as
suas palavras.
nem sei porque me lembrei de R, talvez porque às
vezes tropeçamos em coisas vulgares no dia a dia e parece-nos ouvir a
música distorcida. pensamos que é melhor parar a música ou então mudar
de par.
onde quer que estejas R, obrigada por tantos momentos de espanto.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
terça-feira, 25 de março de 2014
na minha rua
na minha rua em lugar de estrelas erguem-se os postes, miradouros que os pássaros cuidam no poisar dos voos. alcançam o dia que vem e o que agora acaba pedindo alívio. no silêncio que teima em vir. interrompido por quem demora a chave que anseia o sossego da porta. e o cair das pestanas. nesta rua que não é só minha e tem a altura dos meus olhos.
terça-feira, 18 de março de 2014
sabes lá tu
sabes lá tu a hora de partir. como nunca a hora de chegar, mesmo no desejo marcada se sabe. e doem-te já os braços de nada teres. por muito longe que os estendas. e os olhos muito alcancem. na pouca visão que ainda guardam. são mais os rios que bordas na cordilheira desabitada da tua pele que os barcos que os navegam. não há cais que tudo guarde nas noites de maior tormenta.
sabes lá tu a hora de partir. nem mesmo se ainda aqui estás. se tanto te afundas nessa casa de pensar.
silêncios
deixa que entre os lábios soprem os ventos que as árvores pedem. de ramos quietos as palavras gemem silêncios onde os pássaros adormecem. e os pesadelos florescem.
segunda-feira, 17 de março de 2014
o norte
há em todos os pontos cardeais um norte. se o norte for o destino de andar. e andar for a vontade do caminho a desenrolar-se onda na maré dos dias.
brisa fresca na saliva que cuida da secura nas palavras. tantas, presas, onde se afundam os pés na angústia do abismo.
ai se fossem nuvens no céu da tua boca e um só rio lhe mordesse o voo.
brisa fresca na saliva que cuida da secura nas palavras. tantas, presas, onde se afundam os pés na angústia do abismo.
ai se fossem nuvens no céu da tua boca e um só rio lhe mordesse o voo.
sexta-feira, 7 de março de 2014
pássaros
ah,
se morrerem as árvores, onde pousarão os pássaros? assusta-me o vazio
onde sossega o voo parado das aprendizes asas coladas ao corpo que geme
por voos. rente ao chão. como se alto fosse o mirar da semente que se
atreve ao frio no acordar dos dias. rebeldes de se fazerem sem aviso.
saberão ainda soletrar no arrepio das ervas orvalhadas a fala de outros
tempos, ou terão esquecido tudo neste apequenar?
a nudez antiga
da nudez antiga. saber apenas dos cheiros. que não trazem nomes, ainda. visto-os no espanto intrigado entre as luzes envergonhadas que as madrugadas descerram. serão os deuses pirilampos, ocultando enquanto fechamos os olhos os brinquedos que nos ofuscam as mãos em bailados ou apenas pássaros? acredito no chilreio como sendo a linguagem do alto. que não alcanço. como os voos que não faço. tendo asas que não cubro de penas porque me vestem os dias. na procuro dos ninhos. de onde me fiz e voltarei.
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