terça-feira, 6 de dezembro de 2011

olhar-te


olhar-te num tempo feliz e ver-te em reflexos de água pendurados em olhos que já não leio mais.

numa linha continua dos dias que me atropelam e nada me deixam fazer. calam-me as noites na inquietude das coisas que me assaltam os sonos cansados. rebeldes sonhos que não o são porque não os peço. nem os quero. devolvê-los onde não sei e nem quero ir.

só o que quero não faço. o que preciso, não tenho. e voltar no futuro ao que já passado se foi. ficar aí em novelo. de pontas escondidas.
só dentro de mim te vou tricotar.

gritar para não morrer



e quando de amor se sente a ferida, também a dor se alivia ao gritar

inventam-se na aridez da voz e no cansaço dos olhos razões para abraços.
procuram-se vestígios que ontem anunciavam o desejo de eternos serem.
acende-se a luz ainda agora na ponta dos dedos à flor da pele

e o amor assenta na pele nova que cresce curada.

de outra forma, a gangrena abriria as portas a mortes que o amor não deseja ainda.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

de vez em quando


de vez em quando fazia-nos bem somar dias em vez de os ver sumir inutilmente em nevoeiros que a memória constrói porque outra coisa já não sabe fazer. ou talvez seja tempo de outra coisa fazer das memórias que não arrecadações de coisas que só úteis tenham de ser. e aí todas as coisas contem. e somaremos até as inúteis. porque dessas também nos fazemos, mesmo sem essa maldita caixa das lembranças.

De tanto e muito perder tudo ganhamos, afinal. esta coisa em que nos transformamos.
feita dos muitos enganos e tropeços aldrabados em cruzamentos sem sinais adequados, onde por fim nos sabemos encontrando-nos onde nunca nos faltámos.

sábado, 3 de dezembro de 2011

sonhos


e tenho sonhos
que me acordam
medos
que não quero
deitados
a meu lado.
pudera eu
calá-los no sossego,
em acalmias
que não conhecem
e tanto procuro,
quando fecho
os meus olhos.

são por demais
as vezes
que não gosto
de sonhar!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

fugias da espera

sei que por lá andavas. encaracolavas-te na preguiça do sol em caíres de tarde de que tanto gostavas. e de olhos fechados amolecias os dias pesados. fugias da espera em que acontecessem futuros.
nada te faltava a não serem ausências. que até de ti te escondias no mergulho em estrelas nas pálpebras a navegar.

só o vento maduro da noite a chegar te levava arrepios. só ele de mim te fazia lembrar. voltavas a casa, ao cigarro e ao copo que ainda a meio levavas ao fim.

a noite tem extensões que não sabes percorrer. e as garrafas vazias nada te podem fazer.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

coração de pedra

vieram ventos, tempestades, foram tantas que sem conta se perderam nas memórias. e revelado ficou teu coração já de pedra. há tanto tempo escondido. e por ti abandonado como se nunca o tivesses e nunca te pertencesse.

tinha nas linhas gravado os caminhos que fizeste. falaram quanto havia nos silêncios que no seu lugar trazias. nos sinais ali cravados, testemunhos adiados, tua alma viu-se nua.

fiz nos meus olhos cortina com água, sal de onde te achei. das tuas palavras murmúrios que nos búzios soprei.
sei apenas que te devolvi ao lugar onde agora já não sei.

nas minhas mãos o meu coração, também é teu.

duma janela qualquer

duma janela qualquer inventas os dias que correm por ti. já não os passeias na trela que dantes os pés te ditavam. puseram-te agora, estátua que és, de gestos apertados em músculos ausentes, na réstia da luz que o sol quando vem, ilumina.

correm-te nessa cabeça, que deitas no meu colo ao ouvir as histórias que já as gaivotas te segredaram, todas as paisagens do rio que banha todas as terras regando sonhos e afundando misérias. e nele tudo o que lá queres deixar.

ainda te sobram dias onde não tens corpo a obedecer-te. e as palavras enchem esse vazio afogando-se por vezes nas lágrimas que vertem desses teus olhos ávidos do que está para vir. em ti não há desertos.

sou eu, o ladrão que te guardo as pérolas de tesouro tão grande, para desvendar ao mundo que não são precisas pernas nem corpo para voar, ir mais além.