segunda-feira, 18 de junho de 2018

Ausências

 Tina Bering
Primeiro ausentaram-se as palavras. Das mais pequenas coisas. Amortalhadas num qualquer lugar. Longe da sua memória. E procurava-as incessantemente no remoinho de todas as outras. Entaramelavam-se e saíam a custo. Depois de tudo ser dito, assomavam-lhe em carreirinha e estranhava-lhes a falta na hora certa. Mesmo assim persistia acarretando dentro dela o peso de se perder. Até que os nomes e os lugares perdessem sinónimo dentro de si. E afligia-se. Cada vez mais. Por quanto tempo guardaria a chave que lhe permitia encontrar-se? Nesse dia estava com ele. Segura. Mas os passos apressados de quem tem muito para cuidar chegaram mais depressa, deixando-na atrás. E a ansiedade corroía-lhe os passos. Desnorteava-se . Chamou-o. Muitas vezes. Por outros nomes. O dele vagueava tropeçando em todos os que lhe vinham à cabeça. Deu um grito mais alto e ele virou-se. Viu-lhe os olhos cansados. Por quanto tempo aguentaria ele estas intermitências na memória que lhe era infiel. A ela. Arrependeu-se do grito e balbuciou as palavras que lhe restaram, vou conseguir, eu sei que vou conseguir. Esperava ainda que as palavras, os lugares regressassem e ela não pesasse mais aos seus ombros. Ele parou e esperou por ela. Depois apressou-a. O tempo faltava para que ele conseguisse fazer tudo. Ela já quase nada fazia perdida nos esquecimentos. Pediu-lhe que acelerasse os passos. Ah, como tudo lhe parecia vazio, sem sentido! Os lugares, os nomes, as palavras, todas longe. Só aquela montanha cada vez mais alta, cada vez mais longe de alcançar. E os olhos encheram-se de água. E o peito em ferida a romper por entre a pele. Sabia que o amava muito. As palavras gemiam de tanto sentir. E pronunciavam-se nos gestos. Cansados e desesperados de se fazerem entender. Não queria atar-lhe os passos. Essa seria a dor maior. Só uma palavra continuava integra nesse entendimento. E desejou que ela lhe cortasse as veias e lhe sussurrasse baixinho, está tudo bem, está tudo bem.

domingo, 17 de junho de 2018

As palavras

As palavras nascem dos gestos. A toda a hora e desde sempre. O gesto faz-se e a palavra desenha- se nos lábios. Ainda que tudo cale.
É muitas vezes no silêncio que se dizem as coisas maiores. As que não cabem dentro de nós. E transbordam. Repletas de mil entendimentos que só os gestos sabem. Desencontrados das palavras. Prenhes de se dizer. Na dor incontida de nascer.

A minha casa

A minha casa é uma aldeia. Lugar de recolhimento. Onde todos podem pertencer. Aqui todos se conhecem e estimam. Os segredos são partilhados com carinho.
É um lugar de festas e risos. E as tristezas aconchegam-se nos abraços de cada um.
Há quem parta e fique aninhado nas memórias. Há quem chegue e quebre o fio da saudade.

A minha aldeia é uma família. Mesmo para os que não aqueceram o nosso útero. Porque nos crescem no peito.
A minha casa é uma aldeia a que chamo família.

Há um rio

Há um rio dentro de cada um. Inteiro. Nasce no coração. Desagua na fonte dos olhos.
Há um rio dentro de cada um. Sedento de liberdade.

domingo, 3 de junho de 2018

Acontecer

Acontecer é um verbo faminto. De mãos de vontades e acasos. Sem tudo isto, nada é. E quando acontecer se desdobra aos nossos olhos, outros verbos se fazem. Inadvertidamente. Mesmo que propositado seja.
É difícil saber quando tudo começa. Onde nasce este imprevisto que se faz acontecido.
Quando, onde, porquê e a quem são perguntas que desfiamos mesmo que estejamos ávidos de acontecer. E ainda assim no verbo feito tudo paira no espanto ou admiração do que ocorre.
Pode ser o desejo. Pode ser a força de querer. Assim alimentada no peito. Mesmo sem saber. O fruto advém. E tudo começa. Parido o momento outros se fazem. Passo a passo na mesma sequência decorre. Seja o que for. Pelo tempo que a expiração durar. Porque a cada inspiração renasce. E a caminhada se desenha.
Como verso a verso nasce o poema. Acontecimento a acontecimento cumpre-se a vida. Desenrolando-se o novelo, crochetando tudo quanto as mãos aprendem a quanto nos calha no transcorrer dos dias.
Somos o que resulta. Somado tudo o que se faz. Aparecido a tudo o que surge. Cumprindo-se a razão de viver. Haja o que houver. Até que nada assome ao nosso olhar e a respiração adormeça no útero da terra.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

o amor

o amor nasce muitas vezes. da mesma forma que os dias nascem. sem futuros anunciados, sem antevisões e até sem que haja vontade. nasce impiedosamente. até que morre. para nascer de novo.o amor.

lonjuras

Não te sinto a pele. Nem a voz. Perdi-te o rasto. Há nos meus olhos ausências. Só. E esta fome enorme que me consome o ar. As lonjuras vivem dentro de mim. Um deserto antigo sedento d'águas .