quarta-feira, 19 de abril de 2017

Recuso-me

Ah. Recuso-me a seguir a estrada. A margem é a casa dos meus passos. Sou alheio à corrente. Haja força nos braços. Habita-me a estranheza de aqui não pertencer.

Filha

É em ti que penso. Que outra coisa não sei fazer. Nesta lonjura que agora nos liga.
Filha. Cresce no mundo ligada ao coração da mãe. Como os ais. Sopros que nos levam o ar que atormenta o peito. Para podermos respirar. E voltamos a engolir.
Filha. Do ninho ao voo.
É em ti que penso. Que outra coisa não sei fazer.

Despedidas

nunca achamos tarde a hora da despedida. tarde é nunca mais chegar, nunca mais crescer ou alcançar. tudo o mais é cedo.
demasiado cedo quando se diz adeus. para sempre

Não me escondo

Não me escondo. Nem disfarço as dores. O meu corpo desenha a coreografia imperfeita da vida que carrego. Ainda que no esboço do sorriso que te dou se aventure um futuro. Teimoso de acontecer.

...

Choves-me. Cais-me fria nas mãos. Como se as primaveras tivessem perdido as asas. Longe. No colo dos sonhos. Abortados. Choves-me. Prenhe de invernias.

...

No teu colo o vazio. Onde estendo os meus braços. Na sementeira da esperança. Que outra coisa não sei fazer. Digo-te que tudo vai correr bem. E rezo como se fosse o remédio de todas as coisas.
Amanhã é o princípio de todos os dias. De todos os sonhos. Deixa que aqui guarde todas as tuas dores. Longe de ti.

As minhas mãos estão habituadas a semear. Aprenderão a rezar. E da sementeira virá a

Os mortos

os mortos batem-me à porta. vivos. acesos nas minhas mãos. inteiros aos meus olhos. e sou porta aberta. casa sua. morada para sempre deles. não há partidas quando não se vai. não há regressos quando se fica. e a casa abarrota de tanta ausência.
não sei de que lado batem. se de dentro, se de fora. mas os meus ouvidos não deixam de os ouvir. e acho até que no meu coração vivem mais corações. que ele bate por mil.
são os meus mortos, que me querem bem. penso eu.