domingo, 12 de junho de 2016

semente

de repente o meu filho estende-me uma agulha enfiada. sabe que os meus olhos precisam de braços compridos para pôr linhas em buracos tão pequenos. mãe, coze-me estes rasgões nas calças. e vejo buracos que precisam de cuidadas cerziduras. como as antigas. a príncipio recuso. depois enfeitiço-me pelo bordado. e teço as linhas que faltam substituindo as puídas pelo uso. e páro no sossego que me leva aos tempos em que ainda menina aprendia os primeiros pontos. como quem aprende as primeiras letras.
desde menina andei pelos lavores. era assim que se formavam as meninas no nosso tempo. saía da primária e os tempos livres eram passados em casa de gente prendada nos bordados. em casa tinha outros ofícios. a alguns aprendi o jeito a outros tomei-lhe o gosto. ainda outros ficaram nas esquinas das memórias que para meu espanto acordam quando lhes retomo os caminhos. há quem diga que os genes têm baus ancorados com chaves que de vez em quando podemos abrir. eu tive essa sorte com o baú que minha mãe mesmo longe me deixou. uma mulher que fazia magia com as mãos. não lhe chego nem a um terço de altura! mas a semente tem aqui um lugar.

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